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Graça Pires

Graça Pires

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Frases de Graça Pires

8 frases de Graça Pires

"No meio das palavras Quando, nos lábios, começa um continente, suspenso no apelo líquido dos beijos, há um barco que cresce nos meus olhos e, entre búzios verdes, escrevo água. Nunca a brisa se demora entre as dunas, onde os barcos navegam sobre a espuma. Tudo é secreto, se maio se repete nas marcas da pureza recusada. Um rosto ou um rio me fascinam, quando a raiva e o sossego me revelam a nascente e, no meio das palavras, procuro apenas um gesto ou uma sombra. Graça Pires"
"Lugar de Junho É melhor não dormirmos sob o árido labirinto da tristeza. À nossa frente existe um pórtico purificado por uma névoa de sons. Vamos transgredir o limiar do absurdo, porque encontramos um abrigo musical, onde ninguém pode separar as nossas bocas o percurso das águas outonais. É verde o germe do sol nos nossos olhos e, sem querer, a sombra de um pretexto emerge do assombro de nós próprios como um regresso plural da inocência. Estamos num lugar de Junho e qualquer sinal de ausência pode ser apenas um veleiro que partiu dos nossos dedos. Graça Pires"
"Interioridade Aqui estou, cercada de mim, melancolia trazida do interior de um bosque, silhueta a preto e branco na figuração de um pássaro em vôo lento. Há quanto tempo, só eu sei quanto, as amarras de um barco se quebraram, no interior frágil do instante em que fui vento, ou apenas um abandono breve, como as mãos no acto de dar. No ângulo do grito e da língua se explica a leveza das lágrimas, circunfluência no interior das pálpebras, longínquo lago na cintura dos lábios. Cheguei ao lugar onde se cruzam todos os ventos sem hálito e chamo pelo nome os frutos e a fome, para que ninguém se comprometa ao tocar nos meus ombros. Graça Pires"
"Quando Anoitece Quando anoitece contorno no meu rosto o perfil do dia que passou e tudo o que não sou me contradiz. Quando anoitece atravesso um labirinto caiado de paixão, pretexto circular da minha fé. Quando anoitece faço emergir do abismo um instinto quase secreto e fujo da noite, em vertiginosa simetria com o vento, como se fosse um equívoco esperar a madrugada com a mesma lentidão de um acto íntimo. Contra um muro branco esta lonjura gémea do vento. Uma casa ou um regaço alternando a desordem de corpos molhados numa dicotomia simulada quando o prazer é o reflexo nítido de um coágulo de azul queimado sobre madrepérolas. São corais que no fundo da água não quebram as vagas silvestres. Nasci agora enquanto uma andorinha baloiçava no espelho atravessado de pólen. Sou, sílaba por sílaba, o luto ou a negação de desumanos deuses. Quando anoitece ... Graça Pires"