"Refaço a espera Veio, devagar, um pássaro sobrevoar minhas mãos tão adiadas das tuas. Refaço a espera. Digo o teu nome para que voltes."
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Ver todas"Quando Anoitece Quando anoitece contorno no meu rosto o perfil do dia que passou e tudo o que não sou me contradiz. Quando anoitece atravesso um labirinto caiado de paixão, pretexto circular da minha fé. Quando anoitece faço emergir do abismo um instinto quase secreto e fujo da noite, em vertiginosa simetria com o vento, como se fosse um equívoco esperar a madrugada com a mesma lentidão de um acto íntimo. Contra um muro branco esta lonjura gémea do vento. Uma casa ou um regaço alternando a desordem de corpos molhados numa dicotomia simulada quando o prazer é o reflexo nítido de um coágulo de azul queimado sobre madrepérolas. São corais que no fundo da água não quebram as vagas silvestres. Nasci agora enquanto uma andorinha baloiçava no espelho atravessado de pólen. Sou, sílaba por sílaba, o luto ou a negação de desumanos deuses. Quando anoitece ... Graça Pires"
"Graça Pires (Figueira da Foz, 22 de Novembro de 1946) É uma poeta portuguesa. É licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Editou o seu primeiro livro em 1988, depois de ter recebido o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com o livro Poemas."
"No meio das palavras Quando, nos lábios, começa um continente, suspenso no apelo líquido dos beijos, há um barco que cresce nos meus olhos e, entre búzios verdes, escrevo água. Nunca a brisa se demora entre as dunas, onde os barcos navegam sobre a espuma. Tudo é secreto, se maio se repete nas marcas da pureza recusada. Um rosto ou um rio me fascinam, quando a raiva e o sossego me revelam a nascente e, no meio das palavras, procuro apenas um gesto ou uma sombra. Graça Pires"
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