"Tão cúmplice, as palavras Às vezes vêm de muito longe: de fatigadas viagens, de mortes prematuras, de excessivas solidões. Mas vêm. E trazem a inicial pureza das fontes. E a lâmina do silêncio. E a desordem da noite. E a luz extenuada do olhar. Tão cúmplices, as palavras."
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Ver todas"Quando Anoitece Quando anoitece contorno no meu rosto o perfil do dia que passou e tudo o que não sou me contradiz. Quando anoitece atravesso um labirinto caiado de paixão, pretexto circular da minha fé. Quando anoitece faço emergir do abismo um instinto quase secreto e fujo da noite, em vertiginosa simetria com o vento, como se fosse um equívoco esperar a madrugada com a mesma lentidão de um acto íntimo. Contra um muro branco esta lonjura gémea do vento. Uma casa ou um regaço alternando a desordem de corpos molhados numa dicotomia simulada quando o prazer é o reflexo nítido de um coágulo de azul queimado sobre madrepérolas. São corais que no fundo da água não quebram as vagas silvestres. Nasci agora enquanto uma andorinha baloiçava no espelho atravessado de pólen. Sou, sílaba por sílaba, o luto ou a negação de desumanos deuses. Quando anoitece ... Graça Pires"
"Expressão Dentro da curva inesperada dos meus braços, transbordam os gestos numa espiral imperceptível. Nas pontas dos meus dedos se alonga a neblina que deriva do inverso da loucura quando prendo nos dentes a superstição da lua ou esboço no riso a cumplicidade dos espelhos timidamente transparentes para dizer que só pelo silêncio se vence o labirinto das palavras e se mede a solidão. Graça Pires"
"Interioridade Aqui estou, cercada de mim, melancolia trazida do interior de um bosque, silhueta a preto e branco na figuração de um pássaro em vôo lento. Há quanto tempo, só eu sei quanto, as amarras de um barco se quebraram, no interior frágil do instante em que fui vento, ou apenas um abandono breve, como as mãos no acto de dar. No ângulo do grito e da língua se explica a leveza das lágrimas, circunfluência no interior das pálpebras, longínquo lago na cintura dos lábios. Cheguei ao lugar onde se cruzam todos os ventos sem hálito e chamo pelo nome os frutos e a fome, para que ninguém se comprometa ao tocar nos meus ombros. Graça Pires"
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