"A vida reparte-se por ciclos, cujas fronteiras são por vezes de uma perturbadora nitidez. Parece, no entanto, ilusório que nos caiba escolher. Talvez a opção tenha sido feita desde o princípio, isto é: talvez haja uma ordem íntima que deva ser cumprida através de uma dessas manifestações, mesmo quando a escolhida se nos afigura incoerente."
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Fernando Namora
Fernando Gonçalves Namora (15 de Abril de 1919 - 31 de Janeiro de 1989) foi um célebre poeta, escritor e médico português. Além de poesia, sua vasta produção literária inclui romances, biografias e ensaios; seu livro mais famoso é Deuses e Demónios da Medicina (1952).
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"Meu corpo estiraçado, lânguido, ao logo do leito. O cigarro vago azulando os meus dedos. O rádio... a música... A tua presença que esvoaça em torno do cigarro, do ar, da música... Ausência!, minha doce fuga! Estranha coisa esta, a poesia, que vai entornando mágoa nas horas como um orvalho de lágrimas, escorrendo dos vidros duma janela, numa tarde vaga, vaga..."
"Que ninguém hoje me diga nada. Que ninguém venha abrir a minha mágoa, esta dor sem nome que eu desconheço donde vem e o que me diz. É mágoa. Talvez seja um começo de amor. Talvez, de novo, a dor e a euforia de ter vindo ao [mundo. Pode ser tudo isso, ou nada disso. Mas não o afirmo. As palavras viriam revelar-me tudo. E eu prefiro esta angústia de não saber de quê."
"Há em todas as coisas a marca estranha da minha presença. Sons, palavras, imagens, tudo eu desfiguro e torno falso. As pessoas, à minha volta, deslizam vagamente como sonâmbulos - fantoches ocos de lenda... Os sons, se logram atravessar portas e janelas, partem-se no lajedo frio dos meus olhos. Vai-se o sol Onde o meu pensamento das trevas se poisa. Oh! as minhas ilusões de claridade!"
"Raro e vazio dia. Calmo e velho dia. Os membros lassos debruados deste cansaço sem porquê. Raro e vazio dia, assim inteiro e implacável na solidão grave e trágica do meu quarto nu. Perdido, perdido, este vagabundear dos meus olhos sobre os livros fechados e decorados, sobre as árvores roídas, sobre as coisas quietas, quietas... Raro e vazio dia na minha boca pálida e pouca, sem uma praga para quebrar a magia do ópio!"
"Vou fazendo horas - metade da vida é uma perdulária expectativa. E tonta. E ansiosa. E inútil. Como quem se sentou numa gare de caminho-de-ferro, à espera de um comboio que não se sabe quando passará e qual o seu destino. Certeza, e relativa, está apenas no local de espera. E às vezes na própria espera. Se chegamos a concretizar a viagem, o lugar aonde o comboio nos levou, desilude-nos. Isso, porém, não impede que tudo venha a repetir-se. Desperdiça-se o instante real e concreto, mas que, como areia, se nos escapa das mãos, em favor de uma ilusória vez seguinte."
"Pilotagem E os meus olhos rasgarão a noite; E a chuva que vier ferir-me nas vidraças Compreenderá, então, a sua inutilidade; E todos os sinos que alimentavam insónias hão-de repetir as horas mortas só para os ouvidos da torre; E os outros ruídos abafar-se-ão no manto negro da noite; E a mão alva que me apontava os nortes e ficou debruçada no postigo amortalhada pela neve reviverá de novo; E todas as luzes que tresnoitaram os homens apagar-se-ão; E o silêncio virá cheio de promessas que não se cansaram na viagem; E os caminhos se abrirão para os homens que seguirem de mãos dadas; E assim terão começo os sonhados dias dos meus dias!"
"Minhas mãos - duas chamas débeis de vela unidas no mesmo destino. Minhas mãos derretidas em cera que vai escorrendo, gota a gota, ao longo do corpo hirto da vela moribunda. Que vai escorrendo, lenta, na calmaria falsa e densa da luz delida e mortuária do meu quarto. E o livro de Anatomia, grave e inútil, aberto em frente. E todo o mundo, que me espera e desespera, nas páginas inúteis e graves do livro de Anatomia. E as horas morrendo, morrendo, como uma vela que se vai derretendo no quarto frio de um morto. Ai! minhas mãos, minhas mãos - duas chamas débeis de vela unidas no mesmo destino! - Que horas serão? A vida é uma vela de corpo hirto que se vai derretendo, derretendo, na calmaria falsa e densa de um quarto de morto."
"A minha poesia é assim como uma vida que vagueia pelo mundo, por todos os caminhos do mundo, desencontrados como os ponteiros de um relógio velho, que ora tem um mar de espuma, calmo, como o luar num jardim nocturno, ora um deserto que o simum veio modificar, ora a miragem de se estar perto do oásis, ora os pés cansados, sem forças para além. Que ninguém me peça esse andar certo de quem sabe o rumo e a hora de o atingir, a tranquilidade de quem tem na mão o profetizado de que a tempestade não lhe abalará o palácio, a doçura de quem nada tem a regatear, o clamor dos que nasceram com o sangue a crepitar. Na minha vida nem sempre a bússola se atrai ao mesmo norte. Que ninguém me peça nada. Nada. Deixai-me com o meu dia que nem sempre é dia, com a minha noite que nem sempre é noite como a alma quer. Não sei caminhos de cor."
"a terra é estéril, a arca vazia, o gado minga e se fina! António, é preciso partir! A enxada sem uso, o arado enferruja, o menino quere o pão; a tua casa é fria! É preciso emigrar! O vento anda como doido – levará o azeite; a chuva desaba noite e dia – inundará tudo; e o lar vazio, o gado definhando sem pasto, a morte e o frio por todo o lado, só a morte, a fome e o frio por todo o lado, António! É preciso embarcar! Badalão! Badalão! – o sino já entoa a despedida. Os juros crescem; o dinheiro e o rico não têm coração. E as décimas, António? Ninguém perdoa – que mais para vender? Foi-se o cordão, foram-se os brincos, foi-se tudo! A fome espia o teu lar. Para quê lutar com a secura da terra, com a indiferença do céu, com tudo, com a morte, com a fome, coma a terra, com tudo! Árida, árida a vida! António, é preciso partir! António partiu. E em casa, ficou tudo medonho, desamparado, vazio."