"Vou fazendo horas - metade da vida é uma perdulária expectativa. E tonta. E ansiosa. E inútil. Como quem se sentou numa gare de caminho-de-ferro, à espera de um comboio que não se sabe quando passará e qual o seu destino. Certeza, e relativa, está apenas no local de espera. E às vezes na própria espera. Se chegamos a concretizar a viagem, o lugar aonde o comboio nos levou, desilude-nos. Isso, porém, não impede que tudo venha a repetir-se. Desperdiça-se o instante real e concreto, mas que, como areia, se nos escapa das mãos, em favor de uma ilusória vez seguinte."
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Ver todas"Raro e vazio dia. Calmo e velho dia. Os membros lassos debruados deste cansaço sem porquê. Raro e vazio dia, assim inteiro e implacável na solidão grave e trágica do meu quarto nu. Perdido, perdido, este vagabundear dos meus olhos sobre os livros fechados e decorados, sobre as árvores roídas, sobre as coisas quietas, quietas... Raro e vazio dia na minha boca pálida e pouca, sem uma praga para quebrar a magia do ópio!"
"Todos os caminhos me servem. Em todos serei o ébrio cabeceando nas esquinas. Uma rua deserta e o hálito das pessoas que se escondem, uma rua deserta e um rafeiro por companheiro."
"Dia que vais escoando como os rios e empalideces rostos e cabelos, traze a palavra para a incerteza dos que vagueiam à deriva; Ó dia correndo e findando, some-te lá no cimo da fraga mas deixa que no teu rasto fique o sangue anunciando a esperança noutro dia. Sê como a onda que morre para outra começar."
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