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"Pilotagem E os meus olhos rasgarão a noite; E a chuva que vier ferir-me nas vidraças Compreenderá, então, a sua inutilidade; E todos os sinos que alimentavam insónias hão-de repetir as horas mortas só para os ouvidos da torre; E os outros ruídos abafar-se-ão no manto negro da noite; E a mão alva que me apontava os nortes e ficou debruçada no postigo amortalhada pela neve reviverá de novo; E todas as luzes que tresnoitaram os homens apagar-se-ão; E o silêncio virá cheio de promessas que não se cansaram na viagem; E os caminhos se abrirão para os homens que seguirem de mãos dadas; E assim terão começo os sonhados dias dos meus dias!"

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"A minha poesia é assim como uma vida que vagueia pelo mundo, por todos os caminhos do mundo, desencontrados como os ponteiros de um relógio velho, que ora tem um mar de espuma, calmo, como o luar num jardim nocturno, ora um deserto que o simum veio modificar, ora a miragem de se estar perto do oásis, ora os pés cansados, sem forças para além. Que ninguém me peça esse andar certo de quem sabe o rumo e a hora de o atingir, a tranquilidade de quem tem na mão o profetizado de que a tempestade não lhe abalará o palácio, a doçura de quem nada tem a regatear, o clamor dos que nasceram com o sangue a crepitar. Na minha vida nem sempre a bússola se atrai ao mesmo norte. Que ninguém me peça nada. Nada. Deixai-me com o meu dia que nem sempre é dia, com a minha noite que nem sempre é noite como a alma quer. Não sei caminhos de cor."

"Secreto me acho e secreto me sentes quando secreto me julgas, Impuro me reconheço quando o nosso silêncio são vozes turbas. Dúbio é o desejo quando não é transparente"

"Minhas mãos - duas chamas débeis de vela unidas no mesmo destino. Minhas mãos derretidas em cera que vai escorrendo, gota a gota, ao longo do corpo hirto da vela moribunda. Que vai escorrendo, lenta, na calmaria falsa e densa da luz delida e mortuária do meu quarto. E o livro de Anatomia, grave e inútil, aberto em frente. E todo o mundo, que me espera e desespera, nas páginas inúteis e graves do livro de Anatomia. E as horas morrendo, morrendo, como uma vela que se vai derretendo no quarto frio de um morto. Ai! minhas mãos, minhas mãos - duas chamas débeis de vela unidas no mesmo destino! - Que horas serão? A vida é uma vela de corpo hirto que se vai derretendo, derretendo, na calmaria falsa e densa de um quarto de morto."

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