"Ah,o que ela ignorava é que todo ato de violência, desde que seu gesto se cumpra, é um ato interior; o que ela estranhava, não era o ambiente, mas o que nela era estranho - o que se rompera no seu íntimo com aquilo que praticara, era a dose de vontade que despertara seu espírito do letargo imposto pelo hábito, a raiz viva da consciência que, boa ou má, começava a aflorar acima das contingências banais da existência."
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Frases - Página 2
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"O que não podia suportar era aquele estado vulgar das coisas, aquela sufocante apatia que lhes dava um ar de seres que se consomem num lento aniquilamento. Por momentos, parecia esquecer-se de tudo. Mas eis que de repente, a um golpe ou a um ruído, a angústia voltava a obsedar-lhe a alma. Ele não tinha sentidos senão para sofrer e desejar inutilmente. Cansado das suas lutas estéreis, recostara a cabeça e, cerrando os olhos, procurava sufocar o tumultuoso transbordamento do coração."
"[Poesia da Derrota na Revolta] ... E se piedade vos sobrar, Senhor tende piedade de mim. Tende que eu estou sozinho, que eu vos recusei como Judas que vos traiu. Tende que eu sou cego e levantei minha mão contra vós. Tende,- chega de eu mesmo tentar me tapear – que eu preciso realmente de piedade, que não sou forte. Que sou apenas um perdido vos procurando, curioso e ansioso. Tende piedade que me separei de meus irmãos e já não compreendo mais sua linguagem. Mas... tu me entendes, Senhor?!"
"Ela se sentia sem forças para lutar – o seu amor, a sua vida apareciam de repente sem nenhum interesse, como se fossem coisas colocadas fora do seu ser, e ela, uma figura sem contornos, se movendo no fundo de um espelho. Recusava-se a sofrer mais. Parada no alto da escada, tendo diante de si o jardim aberto, sentia uma amplidão a que não estava habituada – e aspirava com força, desejando talvez que aquele ar saturado de essências penetrasse na sua alma, encerrada na umidade dos dias sombrios e amargos."
"Não acredito, jamais acreditei numa possibilidade de se reviver. A eternidade não existe. Ela aí está, morta, miseravelmente morta, tão morta que a seu respeito não é possível pensar nada, senão que é lixo, um monte de coisa a que se dá com o pé, como esterco de bicho. Isto, Deus, é o que somos? Tua efígie, como ensinam que representamos, é um disfarce do podre? Somos esta hora marcada, este medo de derreter e não ser nada? Ah, é injusto. Não há piedade, e, sem piedade, como imaginar Deus, o poder de Deus, o respeito de Deus?"
"Compreendia bem que era preciso renunciar – ainda mesmo que isto lhe custasse a vida. Que fundo cruel encontrava de repente naquele jardim? Imaginou os pés secos, as corolas murchas, a desolação dominando. Para que toda a maravilha daquela noite, se o seu amor não se realizava, se aqueles lugares apenas lhe sugeriam possibilidades de momentos felizes que decerto ela nunca teria? Sem dúvida a ideia de renúncia nascera daí: por que não se desligar de todos os laços, romper na própria carne todas as fibras que a ligavam a Pedro, readquirir a liberdade que perdera? Renunciar!"
"Não podia explicar esse furioso desejo de sentir alguém vivo junto de si, uma âncora que o retivesse junto a essa vida que parecia revolvê-lo constantemente ao seu lugar de espectador. Sim, como pudera imaginar que conseguiria viver de um modo diferente, como ousaria acreditar que seria possível romper os limites traçados ao seu destino? Deus do céu, como ousara reclamar o que não lhe é devido? E José Roberto escondeu o rosto nas mãos, ofuscado pela vergonha que lhe queimava o rosto. Que ao menos Deus lhe desse humildade suficiente para nada desejar, para se confundir com as coisas mais obscuras, mais privadas do calor humano.”"
""E nunca soubera com tanta certeza como naquele instante que, enquanto existisse, proclamaria de pé que o gênero humano é desgraçado, e que a única coisa que se concede a ele, em qualquer terreno que seja, é a porta fechada. O resto, ai de nós, é quimera, é delírio, é fraqueza. Tudo o que eu representava, como uma ilha cercada pelas encapeladas ondas daquele mar de morte, admitia que a raça era desgraçada, condenada para todo o sempre a uma clamorosa e opressiva solidão. A ponte não existe, jamais existiu: quem nos responde é um Juiz de fala oposta à nossa. E sendo assim, desgraçada também a potência que nos inventou, a perpétua vigília por trás desse cárcere de que só escapamos pelo esforço da demência, do mistério ou da confusão.""
""Há uma época em que as desilusões, o cansaço da luta e uma íntima convicção de que afinal a vida não vale tão grandes esforços convertem-se, para determinados espíritos, numa nuvem que aumenta aos poucos, até obscurecer todo o horizonte. O jogador sente então que a partida está definitivamente perdida e examina, sem saber o que fazer delas, as cartas que ainda lhe restam nas mãos. Não é exatamente este o sentimento dos velhos, ou melhor, daqueles que lutaram a vida inteira por uma tranquilidade que sempre se sentiram cada vez mais distantes? [...] Só um deserto se abria agora ao seu olhar, não um deserto como o que trazem em si aqueles que envelhecem felizes, mas uma longa e triste extensão sem alma e sem calor para ser relembrada.""
"Pensava no mistério das relações humanas, naquele “mistério” que o perseguia sempre, como uma chave para situações difíceis. Começava a compreender que um dos princípios dessa idéia era uma espécie de incapacidade de realização em todos os sentidos que se pretendiam. Assim, nada se realizava integralmente, nem o ódio, nem o amor, nem os outros movimentos de menor intensidade. Só seria admitida a possibilidade de um sucesso completo, caso a natureza obscura desse “mistério” fosse revelada. Podia ser que então o equilíbrio pudesse ser tentado. Mas dentro das manifestações informes desse enigma, entre o temor e a angústia, achava-se estabelecido o próprio centro negativo de repulsão, que não permitia senão um amor incompleto e um ódio sem conhecimento das suas próprias forças."
""E ela não fizera durante esse tempo nada mais que reatar em si os mesmos laços, não pudera fazer mais do que se iludir, apoiada em lembranças que só existiam na sua imaginação. O seu encontro com a realidade era pois de uma dolorosa dificuldade, adquirindo as formas de um néscio ludíbrio, sem que ela soubesse fugir a esse desencanto. Sim, sim – o seu trabalho seria o de destruir esses falsos laços, de rompê-los a todo custo, um a um, ainda que isto custasse um preço maior do que o que ela pagava agora. Todo aquele clima, criado pela sensibilidade em torno de uma situação por si mesma insustentável, morria agora pela ausência de uma vitalidade real. Ela tinha a impressão de que se agitava num charco e o lodo sufocava-a, rompendo de todos os lados como de um corpo apodrecido.""
"'Deus' - e pela primeira vez uma vaga de temor perpassou pelo seu coração. Se Deus existisse, decerto a estaria vendo naquele momento, empurrando aquela cadeira de rodas numa estrada poeirenta de Minas. Se Deus existisse, seu olhar se conf rangeria, pois saberia qual era o oculto desígnio que ela levava no fundo do coração. Mas era difícil para Donana de Lara acreditar em Deus naquela ora com o sol brilhando tanto, e as pessoas ostentando ar tão despreocupado. O sol, a muda placidez das coisas são inimigos de qualquer noção do sobrenatural. A palavra 'Deus' vindo como um toque de sino, ecoou no espírito de Donana, e perdeu-se como um eco arrastado pelo vento. 'Deus existe' - murmurou ela - 'mas não me vê, nem se importa com o que eu faço'. E dura, ia empurrando a cadeira de rodas."