""E nunca soubera com tanta certeza como naquele instante que, enquanto existisse, proclamaria de pé que o gênero humano é desgraçado, e que a única coisa que se concede a ele, em qualquer terreno que seja, é a porta fechada. O resto, ai de nós, é quimera, é delírio, é fraqueza. Tudo o que eu representava, como uma ilha cercada pelas encapeladas ondas daquele mar de morte, admitia que a raça era desgraçada, condenada para todo o sempre a uma clamorosa e opressiva solidão. A ponte não existe, jamais existiu: quem nos responde é um Juiz de fala oposta à nossa. E sendo assim, desgraçada também a potência que nos inventou, a perpétua vigília por trás desse cárcere de que só escapamos pelo esforço da demência, do mistério ou da confusão.""
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Ver todas""E ela não fizera durante esse tempo nada mais que reatar em si os mesmos laços, não pudera fazer mais do que se iludir, apoiada em lembranças que só existiam na sua imaginação. O seu encontro com a realidade era pois de uma dolorosa dificuldade, adquirindo as formas de um néscio ludíbrio, sem que ela soubesse fugir a esse desencanto. Sim, sim – o seu trabalho seria o de destruir esses falsos laços, de rompê-los a todo custo, um a um, ainda que isto custasse um preço maior do que o que ela pagava agora. Todo aquele clima, criado pela sensibilidade em torno de uma situação por si mesma insustentável, morria agora pela ausência de uma vitalidade real. Ela tinha a impressão de que se agitava num charco e o lodo sufocava-a, rompendo de todos os lados como de um corpo apodrecido.""
"Cada um de nós caminha beirando o abismo que traz dentro de si próprio. Somos o nosso céu e o nosso inferno."
"“Onde estava, que paisagem era aquela? Criação de um Deus impotente para arrastar suas criaturas até a luz plena, ali jaziam os destroços de sua visão, consciências vivas e visionárias cerceadas de todos os lados pela doença, pela fome, pel o tédio, pelo vício e pela morte. Não, nenhum Deus ousaria ter levantado semelhante caos. O homem nasce do chão, vem da poeira e da terra escura como as plantas, é uma força desenraizada e cega, uma pobre árvore solta na imensidão. Não há destino, nem missão a cumprir. Duramos, como os objetos mortos duram. Apoiei-me a um alto muro de pedras, e com mãos sequiosas, ardentes, apalpei as fendas e as protuberâncias, como se temesse que até mesmo aquela última realidade me fugisse. Que era o mundo, que significavam aqueles sinais? Estrela solta, erosão sem significado, esboços de um grande sonho fracassado? Aquela monstruosa paisagem, cheia de formas sem sentido, não atestava a favor de outra experiência, perdida entre os dedos sem forças do homem?”"
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