"Ah,o que ela ignorava é que todo ato de violência, desde que seu gesto se cumpra, é um ato interior; o que ela estranhava, não era o ambiente, mas o que nela era estranho - o que se rompera no seu íntimo com aquilo que praticara, era a dose de vontade que despertara seu espírito do letargo imposto pelo hábito, a raiz viva da consciência que, boa ou má, começava a aflorar acima das contingências banais da existência."
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Ver todas"Não acredito, jamais acreditei numa possibilidade de se reviver. A eternidade não existe. Ela aí está, morta, miseravelmente morta, tão morta que a seu respeito não é possível pensar nada, senão que é lixo, um monte de coisa a que se dá com o pé, como esterco de bicho. Isto, Deus, é o que somos? Tua efígie, como ensinam que representamos, é um disfarce do podre? Somos esta hora marcada, este medo de derreter e não ser nada? Ah, é injusto. Não há piedade, e, sem piedade, como imaginar Deus, o poder de Deus, o respeito de Deus?"
"“Haveria de incutir em todas as fibras da sua alma a noção desesperada dessa liberdade que eu tanto amei. À custa de palavras marteladas durante o dia inteiro, aprenderia que miserável comédia representa a existência neste mundo, que sonho de escuridão e obscenidade é o caminho do homem sobre a terra. Não, nossa única obrigação é sermos fortes, intratáveis, selvagens na satisfação dos nossos desejos e fantasias. Mas agora me sopram alguma coisa ao ouvido e eu sorrio: bem sei que não passo de um triste fracassado, bem sei que estes planos serviriam apenas para fazerem arder a minha imaginação de solitário, bem sei que apesar dos meus esforços, não consegui burilar senão uma tosca imagem do príncipe que idealizei – mas, santo Deus, desta vez com este dútil barro nas minhas mãos, não levantaria um fantoche inútil, um ser marcado somente pelas ambições fracassadas e vontade aniquilada.”"
"Compreendia bem que era preciso renunciar – ainda mesmo que isto lhe custasse a vida. Que fundo cruel encontrava de repente naquele jardim? Imaginou os pés secos, as corolas murchas, a desolação dominando. Para que toda a maravilha daquela noite, se o seu amor não se realizava, se aqueles lugares apenas lhe sugeriam possibilidades de momentos felizes que decerto ela nunca teria? Sem dúvida a ideia de renúncia nascera daí: por que não se desligar de todos os laços, romper na própria carne todas as fibras que a ligavam a Pedro, readquirir a liberdade que perdera? Renunciar!"
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