"'Deus' - e pela primeira vez uma vaga de temor perpassou pelo seu coração. Se Deus existisse, decerto a estaria vendo naquele momento, empurrando aquela cadeira de rodas numa estrada poeirenta de Minas. Se Deus existisse, seu olhar se conf rangeria, pois saberia qual era o oculto desígnio que ela levava no fundo do coração. Mas era difícil para Donana de Lara acreditar em Deus naquela ora com o sol brilhando tanto, e as pessoas ostentando ar tão despreocupado. O sol, a muda placidez das coisas são inimigos de qualquer noção do sobrenatural. A palavra 'Deus' vindo como um toque de sino, ecoou no espírito de Donana, e perdeu-se como um eco arrastado pelo vento. 'Deus existe' - murmurou ela - 'mas não me vê, nem se importa com o que eu faço'. E dura, ia empurrando a cadeira de rodas."
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Ver todas""E ela não fizera durante esse tempo nada mais que reatar em si os mesmos laços, não pudera fazer mais do que se iludir, apoiada em lembranças que só existiam na sua imaginação. O seu encontro com a realidade era pois de uma dolorosa dificuldade, adquirindo as formas de um néscio ludíbrio, sem que ela soubesse fugir a esse desencanto. Sim, sim – o seu trabalho seria o de destruir esses falsos laços, de rompê-los a todo custo, um a um, ainda que isto custasse um preço maior do que o que ela pagava agora. Todo aquele clima, criado pela sensibilidade em torno de uma situação por si mesma insustentável, morria agora pela ausência de uma vitalidade real. Ela tinha a impressão de que se agitava num charco e o lodo sufocava-a, rompendo de todos os lados como de um corpo apodrecido.""
"Cada um de nós caminha beirando o abismo que traz dentro de si próprio. Somos o nosso céu e o nosso inferno."
"O nada é apenas um outro lado do absoluto dos que poderiam acreditar em Deus."
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