"Acostuma-te à lama que te espera! O Homem, que, nesta terra miserável, Mora entre feras, sente inevitável Necessidade de também ser fera."
Voltar para Autores
Ler biografia completa

Augusto dos Anjos
Augusto dos Anjos (1884-1914) foi um poeta brasileiro, considerado um dos mais importantes poetas do Pré-Modernismo. Com sua poesia antilírica e mórbida preparou o terreno para a grande renovação modernista.
66 pensamentos
Frases - Página 2
Mostrando página 2 de 6 (66 frases no total)
"Tome, Dr., esta tesoura, e... corte Minha singularíssima pessoa. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração, depois da morte?!"
"Falas de amor, e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira. É. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo."
"Para onde fores, Pai, para onde fores, Irei também, trilhando as mesmas ruas... Tu, para amenizar as dores tuas, Eu, para amenizar as minhas dores!"
"Escarrar de um abismo noutro abismo, Mandando ao Céu o fumo de um cigarro, Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo!"
"A Esperança não murcha, ela não cansa, Também como ela não sucumbe a Crença, Vão-se sonhos nas asas da Descrença, Voltam sonhos nas asas da Esperança."
"Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana. A podridão me serve de Evangelho... Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho!"
"Solitário Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta, Por trás dos ermos túmulos, um dia, Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta... Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí, como quem tudo repele, – Velho caixão a carregar destroços – Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos!"
"Vox Victimae Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou, dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino, No mar da humana proliferação, Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada, Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador ... E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador!"
"O poeta do hediondo Sofro aceleradíssimas pancadas No coração. Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas, Eu sinto, então, sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto… Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto!"
"Vencido No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo, desde o mais prístino mito, Por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha. Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito, Mergulhou a cabeça no Infinito, Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda, Pondo a áurea insígnia heráldica da farda A vontade do vômito plebeu... E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu."
"Ecos D'Alma Oh! madrugada de ilusões, santíssima, Sombra perdida lá do meu Passado, Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noites tumulares Quem me dera viver entre quimeras, Por entre o resplendor das Primaveras Oh! madrugada azul dos meus sonhares. Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça Quem me dera morrer então risonho Fitando a nebulosa do meu sonho E a Via-Látea da Ilusão que passa!"