"Vox Victimae Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou, dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino, No mar da humana proliferação, Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada, Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador ... E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador!"
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Ver todas"Soneto Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos. 2 fevereiro 1911. Agregado infeliz de sangue e cal, Fruto rubro de carne agonizante, Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial, Que poder embriológico fatal Destruiu, com a sinergia de um gigante, Em tua morfogênese de infante, A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância, Em que lugar irás passar a infância, Tragicamente anônimo, a feder?!... Ah! Possas tu dormir, feto esquecido, Panteísticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER!"
"Viagem de um vencido Noite. Cruzes na estrada. Aves com frio... E, enquanto eu tropeçava sobre os paus, A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho, uivando hoffmânnicos dizeres, Aprazia-me assim, na escuridão, Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres. Eu procurava, com uma vela acesa, O feto original, de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre, era só O ocaso sistemático de pó, Em que as formas humanas se sumiam! Reboava, num ruidoso burburinho Bruto, análogo ao peã de márcios brados, A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas em embriões Prestes a rebentar, como vulcões, Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim, como num chão profundo, Choravam, com soluços quase humanos, Convulsionando Céus, almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes, Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar, No desespero de não serem grandes! Vinha-me à boca, assim, na ânsia dos párias, Como o protesto de uma raça invicta, O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio, A abstinência e a luxúria, o bem e o mal Ardiam no meu Orco cerebral, Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea, Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu, perdido no Cosmos, me tornara A assembléia belígera malsã, Onde Ormuzd guerreava com Arimã, Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas, Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu, de onde se vê o Homem de rastros, Brilhava, vingadora, a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas, Noite alta, com a sidérica lanterna, Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância, Maior que o olhar que perseguiu Caim, Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso muitas cartas Eu sofria, ao colher simples gardênia, A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. Mas das árvores, frias como lousas, Fluía, horrenda e monótona, uma voz Tão grande, tão profunda, tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos, Desde a consciência à antítese dos sexos Vêm de um dínamo fluídico de gás, Se hoje, obscuro, amanhã píncaros galgas, A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe, enquanto Deus, Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir, Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras, do Equador aos pólos, Na prisão milenária dos subsolos, Rasgando avidamente o húmus malsão, Não trabalham, com a febre mais bravia, Para erguer, na ânsia cósmica, a Energia À última etapa da objetivação?! É inútil, pois, que, a espiar enigmas, entres Na química genésica dos ventres, Porque em todas as cousas, afinal, Crânio, ovário, montanha, árvore, iceberg, Tragicamente, diante do Homem, se ergue a esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande, Para esconder-se nessa esfinge grande, Deu-te (oh! Mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Lua! Por isto, oh! filho dos terráqueos limos, Nós, arvoredos desterrados, rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar... Rimos, isto é, choramos, porque, em suma, Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" Às vibrações daquele horrível carme Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir, a escalar Céus e apogeus, A voz cavernosíssima de Deus Reproduzida pelos arvoredos! Agora, astro decrépito, em destroços, Eu, desgraçadamente magro, a erguer-me, Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana, com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque, naquela noite de ânsia e inferno, Eu fora, alheio ao mundanário ruído, A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno!"
"Para onde fores, Pai, para onde fores, Irei também, trilhando as mesmas ruas... Tu, para amenizar as dores tuas, Eu, para amenizar as minhas dores!"
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