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"“Onde estava, que paisagem era aquela? Criação de um Deus impotente para arrastar suas criaturas até a luz plena, ali jaziam os destroços de sua visão, consciências vivas e visionárias cerceadas de todos os lados pela doença, pela fome, pel o tédio, pelo vício e pela morte. Não, nenhum Deus ousaria ter levantado semelhante caos. O homem nasce do chão, vem da poeira e da terra escura como as plantas, é uma força desenraizada e cega, uma pobre árvore solta na imensidão. Não há destino, nem missão a cumprir. Duramos, como os objetos mortos duram. Apoiei-me a um alto muro de pedras, e com mãos sequiosas, ardentes, apalpei as fendas e as protuberâncias, como se temesse que até mesmo aquela última realidade me fugisse. Que era o mundo, que significavam aqueles sinais? Estrela solta, erosão sem significado, esboços de um grande sonho fracassado? Aquela monstruosa paisagem, cheia de formas sem sentido, não atestava a favor de outra experiência, perdida entre os dedos sem forças do homem?”"

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"Nenhuma realidade tangível – atravessara todos esses momentos como uma sombra, movia-se solitária no fundo daquele quarto, reunindo dolorosamente fibra por fibra desse passado que nunca morria inteiramente, que estava sempre pronto a voltar ao primeiro apelo, a sangrar ao primeiro choque com o mundo... Era sua única alegria - mas a consciência do tempo é uma alegria envenenada. Talvez partisse dali todo o seu sofrimento – não saber supor a realidade senão paralela à curva do tempo – não aceitar a vida, senão sorrindo amargamente pela constatação do que não se realizou... linhas paralelas que se chocam e se ferem por vezes – não era exatamente esta a visão que tinha do seu destino, sempre preso à nostalgia e à memória? Agora, desejava fugir, esquecer a outra linha, viver a realidade. Mas como? Como? Desesperara, implorava no quarto silencioso, enquanto a noite avançava."

"Não podia explicar esse furioso desejo de sentir alguém vivo junto de si, uma âncora que o retivesse junto a essa vida que parecia revolvê-lo constantemente ao seu lugar de espectador. Sim, como pudera imaginar que conseguiria viver de um modo diferente, como ousaria acreditar que seria possível romper os limites traçados ao seu destino? Deus do céu, como ousara reclamar o que não lhe é devido? E José Roberto escondeu o rosto nas mãos, ofuscado pela vergonha que lhe queimava o rosto. Que ao menos Deus lhe desse humildade suficiente para nada desejar, para se confundir com as coisas mais obscuras, mais privadas do calor humano.”"

""E ela não fizera durante esse tempo nada mais que reatar em si os mesmos laços, não pudera fazer mais do que se iludir, apoiada em lembranças que só existiam na sua imaginação. O seu encontro com a realidade era pois de uma dolorosa dificuldade, adquirindo as formas de um néscio ludíbrio, sem que ela soubesse fugir a esse desencanto. Sim, sim – o seu trabalho seria o de destruir esses falsos laços, de rompê-los a todo custo, um a um, ainda que isto custasse um preço maior do que o que ela pagava agora. Todo aquele clima, criado pela sensibilidade em torno de uma situação por si mesma insustentável, morria agora pela ausência de uma vitalidade real. Ela tinha a impressão de que se agitava num charco e o lodo sufocava-a, rompendo de todos os lados como de um corpo apodrecido.""

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