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Ver todas"'Deus' - e pela primeira vez uma vaga de temor perpassou pelo seu coração. Se Deus existisse, decerto a estaria vendo naquele momento, empurrando aquela cadeira de rodas numa estrada poeirenta de Minas. Se Deus existisse, seu olhar se conf rangeria, pois saberia qual era o oculto desígnio que ela levava no fundo do coração. Mas era difícil para Donana de Lara acreditar em Deus naquela ora com o sol brilhando tanto, e as pessoas ostentando ar tão despreocupado. O sol, a muda placidez das coisas são inimigos de qualquer noção do sobrenatural. A palavra 'Deus' vindo como um toque de sino, ecoou no espírito de Donana, e perdeu-se como um eco arrastado pelo vento. 'Deus existe' - murmurou ela - 'mas não me vê, nem se importa com o que eu faço'. E dura, ia empurrando a cadeira de rodas."
"Mas para Zeca, para sua alma eternamente imatura, alguma coisa acabara de suceder, e era tão grave, tão decisiva como se lhe fosse outorgada uma maturidade postiça, e ele, a quem a infância fôra dada como destino, viesse bruscamente a perceber o equilíbrio e o tempo, pois o que sentira, mais do que vira ou percebera, fôra uma emoção fund a e desgarradora, uma certeza sem palavra, sem nome, sem classificação, sem nada que pudesse admití-la ou revelá-la, de que a vida existia - essa coisa infrene, cega, voluptuosa e azul, que do outro lado, com um poder sobrenatural erguia a paisagem e a sustinha em seus luminosos alicerces. Descobrindo a vida, Zeca ao mesmo tempo descobrira a si mesmo e aos outros - e tudo o que ele não identificara durante aquele tempo, Donana, o homem ensanguentado, a cortina, as vozes, aquela flor que sustinha na mão - tudo, todas essas realidades - rapidamente encaminharam-se para seus lugares, ocuparam os nichos vazios, deram consistência, cor e veracidade ao mundo. E descobrindo tudo isto, Zeca havia descoberto a morte."
"“Haveria de incutir em todas as fibras da sua alma a noção desesperada dessa liberdade que eu tanto amei. À custa de palavras marteladas durante o dia inteiro, aprenderia que miserável comédia representa a existência neste mundo, que sonho de escuridão e obscenidade é o caminho do homem sobre a terra. Não, nossa única obrigação é sermos fortes, intratáveis, selvagens na satisfação dos nossos desejos e fantasias. Mas agora me sopram alguma coisa ao ouvido e eu sorrio: bem sei que não passo de um triste fracassado, bem sei que estes planos serviriam apenas para fazerem arder a minha imaginação de solitário, bem sei que apesar dos meus esforços, não consegui burilar senão uma tosca imagem do príncipe que idealizei – mas, santo Deus, desta vez com este dútil barro nas minhas mãos, não levantaria um fantoche inútil, um ser marcado somente pelas ambições fracassadas e vontade aniquilada.”"
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