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"“Haveria de incutir em todas as fibras da sua alma a noção desesperada dessa liberdade que eu tanto amei. À custa de palavras marteladas durante o dia inteiro, aprenderia que miserável comédia representa a existência neste mundo, que sonho de escuridão e obscenidade é o caminho do homem sobre a terra. Não, nossa única obrigação é sermos fortes, intratáveis, selvagens na satisfação dos nossos desejos e fantasias. Mas agora me sopram alguma coisa ao ouvido e eu sorrio: bem sei que não passo de um triste fracassado, bem sei que estes planos serviriam apenas para fazerem arder a minha imaginação de solitário, bem sei que apesar dos meus esforços, não consegui burilar senão uma tosca imagem do príncipe que idealizei – mas, santo Deus, desta vez com este dútil barro nas minhas mãos, não levantaria um fantoche inútil, um ser marcado somente pelas ambições fracassadas e vontade aniquilada.”"

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"[Canção da Revolta] ...E se piedade vos sobrar, tende piedade vossa que não sois assim tão poderoso. Que vossos filhos são degenerados, porque não soubestes ser pai e eles se perverteram. Tende piedade vossa que cometestes erro ainda maior: Aprisionastes almas de poetas em corpos de homens. Tende piedade vossa que os feitos à vossa semelhança são vampiros insaciáveis. Tende piedade vossa que há gente com fome, gente com medo, gente com sede e frio, e um dia essa fome se transforma em ódio, esse medo vai se defender e atacar, essa sede vai ser de vosso sagrado sangue, esse frio vai querer se aquecer no calor da revolta. E se mais piedade vos sobrar, tende piedade vossa que não sois o deus carinhoso com que eu sonhei Que sois mal e vingativo, que castigais quando devíeis perdoar. E se piedade vos sobrar tende piedade vossa, que necessitais muito mais de pena do que nós, míseros sofredores."

"'Deus' - e pela primeira vez uma vaga de temor perpassou pelo seu coração. Se Deus existisse, decerto a estaria vendo naquele momento, empurrando aquela cadeira de rodas numa estrada poeirenta de Minas. Se Deus existisse, seu olhar se conf rangeria, pois saberia qual era o oculto desígnio que ela levava no fundo do coração. Mas era difícil para Donana de Lara acreditar em Deus naquela ora com o sol brilhando tanto, e as pessoas ostentando ar tão despreocupado. O sol, a muda placidez das coisas são inimigos de qualquer noção do sobrenatural. A palavra 'Deus' vindo como um toque de sino, ecoou no espírito de Donana, e perdeu-se como um eco arrastado pelo vento. 'Deus existe' - murmurou ela - 'mas não me vê, nem se importa com o que eu faço'. E dura, ia empurrando a cadeira de rodas."

"...já se acostumara ao parco quinhão que lhe era destinado, e empurrava as horas, os dias e as semanas com a indiferença e o tédio com que um preso se acostuma à sua prisão. Acordar, pensar em ser realmente feliz, em chegar à janela do seu cárcere e olhar a paisagem, era quase uma violência que a fazia estremecer toda..."

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