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Florbela Espanca

Florbela Espanca

Florbela Espanca (1894-1930) foi uma importante poetisa portuguesa. Escreveu poesias e contos, além de ter sido a grande precursora do feminismo em Portugal.

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Frases - Página 7

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"Mais Alto Mais alto, sim! mais alto, mais além Do sonho, onde morar a dor da vida, Até sair de mim! Ser a Perdida, A que se não encontra! Aquela a quem O mundo não conhece por Alguém! Ser orgulho, ser águia na subida, Até chegar a ser, entontecida, Aquela que sonhou o meu desdém! Mais alto, sim! Mais alto! A Intangível Turris Ebúrnea erguida nos espaços, A rutilante luz dum impossível! Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber O mal da vida dentro dos meus braços, Dos meus divinos braços de Mulher!"
"Fumo Longe de ti são ermos os caminhos Longe de ti não há luar nem rosas Longe de ti há noites silenciosas Há dias sem calor, beirais sem ninhos Meus olhos são dois velhos pobrezinhos Perdidos pelas noites invernosas Abertos sonham mãos cariciosas Tuas mãos doces, plenas de carinho Os dias são outonos: choram, choram Há crisântemos roxos que descoram Há murmúrios dolentes de segredo Invoco o nosso sonho, entendo os braços e é ele oh meu amor, pelos espaços fumo leve que foge entre os meus dedos."
"Escreve-me ... Escreve-me! Ainda que seja só Uma palavra, uma palavra apenas, Suave como o teu nome e casta Como um perfume casto d'açucenas! Escreve-me!Há tanto,há tanto tempo Que te não vejo, amor!Meu coração Morreu já,e no mundo aos pobres mortos Ninguém nega uma frase d'oração! "Amo-te!"Cinco letras pequeninas, Folhas leves e tenras de boninas, Um poema d'amor e felicidade! Não queres mandar-me esta palavra apenas? Olha, manda então...brandas...serenas... Cinco pétalas roxas de saudade..."
"Errante Meu coração da cor dos rubros vinhos Rasga a mortalha do meu peito brando E vai fugindo, e tonto vai andando A perder-se nas brumas dos caminhos. Meu coração o místico profeta, O paladino audaz da desventura, Que sonha ser um santo e um poeta, Vai procurar o Paço da Ventura... Meu coração não chega lá decerto... Não conhece o caminho nem o trilho, Nem há memória desse sítio incerto... Eu tecerei uns sonhos irreais... Como essa mãe que viu partir o filho, Como esse filho que não voltou mais!"
"Nosso sonho morreu. Devagarinho, Rezemos uma prece doce e triste Por alma desse sonho! Vá… baixinho… Por esse sonho, amor, que não existe! Vamos encher-lhe o seu caixão dolente De roxas violetas; triste cor! Triste como ele, nascido ao sol poente, O nosso sonho… ai!… reza baixo… amor… Foste tu que o mataste! E foi sorrindo, Foi sorrindo e cantando alegremente, Que tu mataste o nosso sonho lindo! Nosso sonho morreu… Reza mansinho… Ai, talvez que rezando, docemente, O nosso sonho acorde… mais baixinho…"
"Eu Até agora eu não me conhecia, julgava que era Eu e eu não era Aquela que em meus versos descrevera Tão clara como a fonte e como o dia. Mas que eu não era Eu não o sabia mesmo que o soubesse, o não dissera... Olhos fitos em rútila quimera Andava atrás de mim... e não me via! Andava a procurar-me - pobre louca!- E achei o meu olhar no teu olhar, E a minha boca sobre a tua boca! E esta ânsia de viver, que nada acalma, E a chama da tua alma a esbrasear As apagadas cinzas da minha alma!"
"Caravelas Cheguei a meio da vida já cansada De tanto caminhar!Já me perdi! Dum estranho país que nunca vi Sou nesse mundo imenso a exilada. Tanto tenho aprendido e não sei nada E as torres de marfím que construí Em trágica loucura as destruí Por minhas próprias mãos de malfadada! Se eu sempre fui assim este Mar morto: Mar sem marés,sem vagas e sem porto Onde velas de sonhos se rasgaram! Caravelas doiradas a bailar... Aí quem me dera as que eu deitei ao Mar! As que eu lancei à vida,e não voltaram!..."
"Vozes Do Mar Quando o sol vai caindo sobre as águas Num nervoso delíquio d’oiro intenso, Donde vem essa voz cheia de mágoas Com que falas à terra, ó mar imenso?… Tu falas de festins, e cavalgadas De cavaleiros errantes ao luar? Falas de caravelas encantadas Que dormem em teu seio a soluçar? Tens cantos d’epopeias?Tens anseios D’amarguras? Tu tens também receios, Ó mar cheio de esperança e majestade?! Donde vem essa voz,ó mar amigo?… … Talvez a voz do Portugal antigo, Chamando por Camões numa saudade!"
"Saudades Saudades! Sim... Talvez... e porque não?... Se o nosso sonho foi tão alto e forte. Que bem pensara vê-lo até à morte. Deslumbrar-me de luz o coração! Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão! Que tudo isso, Amor, nos não importe. Se ele deixou beleza que conforte. Deve-nos ser sagrado como o pão! Quantas vezes, Amor, já te esqueci, Para mais doidamente me lembrar, Mais doidamente me lembrar de ti! E quem dera que fosse sempre assim: Quanto menos quisesse recordar. Mais a saudade andasse presa a mim!"
"Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Aquém e de Além Dor! É ter de mil desejos o esplendor E não saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, É ter garras e asas de condor! É ter fome, é ter sede de Infinito! Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim... É condensar o mundo num só grito! E é amar-te, assim, perdidamente... É seres alma, e sangue, e vida em mim E dizê-lo cantando a toda a gente!"
"O meu desejo Vejo-te só a ti no azul dos céus, Olhando a nuvem de oiro que flutua. Ó minha perfeição que criou Deus E que num dia lindo me fez sua! Nos vultos que diviso pela rua, Que cruzam os seus passos com os meus... Minha boca tem fome só da tua! Meus olhos têm sede só dos teus! Sombra da tua sombra, doce e calma, Sou a grande quimera da tua alma E, sem viver, ando a viver contigo... Deixa-me andar assim no teu caminho Por toda a vida, Amor, devagarinho, Até a morte me levar consigo..."
"Desalento Às vezes oiço rir, é ’ma agonia Queima-me a alma como estranha brasa Tenho ódio à luz e tenho raiva ao dia Que me põe n’alma o fogo que m’abrasa! Tenho sede d’amar a humanidade… Eu ando embriagada… entontecida… O roxo de maus lábios é saudade Duns beijos que me deram n’outra vida! Ei não gosto do Sol, eu tenho medo Que me vejam nos olhos o segredo Que só saber chorar, de ser assim… Gosto da noite, imensa, triste, preta, Como esta estranha e doida borboleta Que eu sinto sempre a voltejar em mim!"