"Quando as palavras não são tão dignas quanto o silêncio, é melhor calar e esperar."
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Ver todas"Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovakloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: - Pai, me ensina a olhar!"
"Minhas certezas se alimentam de dúvidas. E há dias em que me sinto estrangeiro em Montevidéu como seria em qualquer lugar do mundo. E, nestes dias, dias sem sol, noites sem lua, nenhum lugar é meu lugar… …e não consigo me reconhecer em nada nem em ninguém."
"Como minhas incessantes viagens ao banheiro entre cerveja e cerveja me davam vergonha, resolvi dizer que o caminho da cerveja conduz ao banheiro da mesma forma que o caminho do tabaco leva ao cinzeiro, e me senti muito arguto. (A última cerveja de Caldwell, p. 204) Chorar Foi na selva, na Amazônia equatoriana. Os índios shuar estavam chorando a avó moribunda. Choravam sentados, na margem de sua agonia. Uma pessoa, vinda de outros mundos, perguntou: — Por que choram na frente dela, se ela ainda esta viva? E os que choravam responderam: — Para que ela saiba que gostamos muito dela. p. 214 Dizem as paredes/5 Na faculdade de Ciências Econômicas, em Montevidéu: A droga provoca amnésia e outras coisas que esqueci. Em Santiago do Chile, nas margens do rio Mapocho: Bem-aventurados os bêbados, porque eles verão Deus duas vezes. Em Buenos Aires, no bairro de Flores: Uma namorada sem tetas é, mais que namorada, um amigo. p. 216 Eu, mutilado capilar Os barbeiros me humilham cobrando meia tarifa. Faz uns vinte anos que o espelho delatou os primeiros clarões debaixo da melena frondosa. Hoje o luminoso reflexo de minha calva em vitrines e janelas e janelinhas me provoca estremecimentos de horror. Cada fio de cabelo que perco, cada um dos últimos cabelos, é um companheiro que tomba, e que antes de tombar teve nome ou pelo menos número. A frase de um amigo piedoso me consola: — Se o cabelo fosse importante, estaria dentro da cabeça, e não fora. Também me consolo comprovando que em todos esses anos caíram muitos de meus cabelos mas nenhuma de minhas idéias, o que acaba sendo uma alegria quando a gente pensa em todos esses arrependidos que andam por ai. p. 220"
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