"Como minhas incessantes viagens ao banheiro entre cerveja e cerveja me davam vergonha, resolvi dizer que o caminho da cerveja conduz ao banheiro da mesma forma que o caminho do tabaco leva ao cinzeiro, e me senti muito arguto. (A última cerveja de Caldwell, p. 204) Chorar Foi na selva, na Amazônia equatoriana. Os índios shuar estavam chorando a avó moribunda. Choravam sentados, na margem de sua agonia. Uma pessoa, vinda de outros mundos, perguntou: — Por que choram na frente dela, se ela ainda esta viva? E os que choravam responderam: — Para que ela saiba que gostamos muito dela. p. 214 Dizem as paredes/5 Na faculdade de Ciências Econômicas, em Montevidéu: A droga provoca amnésia e outras coisas que esqueci. Em Santiago do Chile, nas margens do rio Mapocho: Bem-aventurados os bêbados, porque eles verão Deus duas vezes. Em Buenos Aires, no bairro de Flores: Uma namorada sem tetas é, mais que namorada, um amigo. p. 216 Eu, mutilado capilar Os barbeiros me humilham cobrando meia tarifa. Faz uns vinte anos que o espelho delatou os primeiros clarões debaixo da melena frondosa. Hoje o luminoso reflexo de minha calva em vitrines e janelas e janelinhas me provoca estremecimentos de horror. Cada fio de cabelo que perco, cada um dos últimos cabelos, é um companheiro que tomba, e que antes de tombar teve nome ou pelo menos número. A frase de um amigo piedoso me consola: — Se o cabelo fosse importante, estaria dentro da cabeça, e não fora. Também me consolo comprovando que em todos esses anos caíram muitos de meus cabelos mas nenhuma de minhas idéias, o que acaba sendo uma alegria quando a gente pensa em todos esses arrependidos que andam por ai. p. 220"
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Ver todas"O sistema/1 Os funcionários não funcionam. Os políticos falam mas não dizem. Os votantes votam mas não escolhem. Os meios de informação desinformam. Os centros de ensino ensinam a ignorar. Os juízes condenam as vítimas. Os militares estão em guerra contra seus compatriotas. Os policiais não combatem os crimes, porque estão ocupados cometendo-os. As bancarrotas são socializadas, os lucros são privatizados. O dinheiro é mais livre que as pessoas. As pessoas estão a serviço das coisas. p. 129 Os índios são bobos, vagabundos, bêbados. Mas o sistema que os despreza, despreza o que ignora, porque ignora o que teme. Por trás da máscara do desprezo, aparece o pânico: estas vozes antigas, teimosamente vivas, o que dizem? O que dizem quando falam? O que dizem quando calam? (Os índios/2, p. 132) A televisão/2 A televisão mostra o que acontece? Em nossos países, a televisão mostra o que ela quer que aconteça; e nada acontece se a televisão não mostrar. A televisão, essa última luz que te salva da solidão e da noite, é a realidade. Porque a vida é um espetáculo: para os que se comportam bem, o sistema promete uma boa poltrona. p. 149 Nós comemos emoções importadas como se fossem salsichas em lata, enquanto os jovens filhos da televisão, treinados para contemplar a vida em vez de fazê-la, sacodem os ombros. Os livros não precisam ser proibidos pela polícia: os preços já os proíbem. (A televisão/3, p. 152) Pela tela desfilam os eleitos e seus símbolos de poder. O sistema, que edifica a pirâmide social escolhendo pelo avesso, recompensa pouca gente. Eis aqui os premiados: são os usurários de boas unhas e os mercadores de dentes bons, os políticos de nariz crescente e os doutores de costas de borracha. (A televisão/5, p. 155)"
"Dos medos nascem as coragens; e das dúvidas, as certezas. Os sonhos anunciam outra realidade possível e os delírios, outra razão."
"A fome/2 Um sistema de desvinculo: Boi sozinho se lambe melhor.., O próximo, o outro, não é seu irmão, nem seu amante. O outro é um competidor, um inimigo, um obstáculo a ser vencido ou uma coisa a ser usada. O sistema, que não dá de comer, tampouco da de amar: condena muitos à fome de pão e muitos mais à fome de abraços. p. 81 Dizem as paredes/l No setor infantil da Feira do Livro, em Bogotá: O Loucóptero é muito veloz, mas muito lento. Na avenida costeira de Montevidéu, frente do rio-mar: Um homem alado prefere a noite. Na saída de Santiago de Cuba: Como gasto paredes lembrando você! E nas alturas de Valparaíso: Eu nos amo. p. 83 de O Livro dos Abraços"
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