"“O eco das palavras do padre ainda vibrava na sua consciência: ‘habitar continuamente uma miragem criada pela nossa obstinação’. E não era assim que ela vivia, encerrada dentro daquela atmosfera de ódio, incapaz de se libertar dos fantasmas criados pela sua fantasia? Que pior maldição poderia existir além daquela, que pior castigo poderia receber das mãos de Deus?”"
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Ver todas"Mas você tem a certeza que é a Deus que nós amamos? Se Ele existe é um dever - e a verdade é que amamos tão pouco os nossos deveres! Por que como pode haver amor onde existe obrigação? Ele pode nos dizer que somos livres, que é do nosso Livre Arbítrio... Mas nós sabemos que não temos por onde escolher: o que nos compete é a obrigação. Por que quem, conscientemente, escolherá a liberdade contra o castigo eterno"
"Apesar de tudo, poderia ainda contar os seus esforços, medir todas as suas tentativas fracassadas, sorrir de tédio ante o vazio que se estendia implacavelmente sobre tudo. Quantas vezes não forçara esse encontro, quantas vezes não se lançara à aventura e voltara rota, marcada indelevelmente por outras decepções maiores, sangrando em toda a sua sensibilidade ferida, disposta a sufocar os seus movimentos na mais resignada sombra? Não desejavam dela senão aquilo de que precisavam – para ela não possuíam nada, ignoravam tudo e no máximo cediam com um sorriso complacente... Que fazer, pois, do calor da sua alma, da vida que pedia campo para se libertar: Que fazer, Deus do céu? E Madalena começava a odiar o seu isolamento, a desejar, por muito impossível que fosse, esse alguém que a conheceria um dia. Onde estancar a sede de ternura?""
"Nenhuma realidade tangível – atravessara todos esses momentos como uma sombra, movia-se solitária no fundo daquele quarto, reunindo dolorosamente fibra por fibra desse passado que nunca morria inteiramente, que estava sempre pronto a voltar ao primeiro apelo, a sangrar ao primeiro choque com o mundo... Era sua única alegria - mas a consciência do tempo é uma alegria envenenada. Talvez partisse dali todo o seu sofrimento – não saber supor a realidade senão paralela à curva do tempo – não aceitar a vida, senão sorrindo amargamente pela constatação do que não se realizou... linhas paralelas que se chocam e se ferem por vezes – não era exatamente esta a visão que tinha do seu destino, sempre preso à nostalgia e à memória? Agora, desejava fugir, esquecer a outra linha, viver a realidade. Mas como? Como? Desesperara, implorava no quarto silencioso, enquanto a noite avançava."
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