"Apesar de tudo, poderia ainda contar os seus esforços, medir todas as suas tentativas fracassadas, sorrir de tédio ante o vazio que se estendia implacavelmente sobre tudo. Quantas vezes não forçara esse encontro, quantas vezes não se lançara à aventura e voltara rota, marcada indelevelmente por outras decepções maiores, sangrando em toda a sua sensibilidade ferida, disposta a sufocar os seus movimentos na mais resignada sombra? Não desejavam dela senão aquilo de que precisavam – para ela não possuíam nada, ignoravam tudo e no máximo cediam com um sorriso complacente... Que fazer, pois, do calor da sua alma, da vida que pedia campo para se libertar: Que fazer, Deus do céu? E Madalena começava a odiar o seu isolamento, a desejar, por muito impossível que fosse, esse alguém que a conheceria um dia. Onde estancar a sede de ternura?""
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Ver todas"Pensava no mistério das relações humanas, naquele “mistério” que o perseguia sempre, como uma chave para situações difíceis. Começava a compreender que um dos princípios dessa idéia era uma espécie de incapacidade de realização em todos os sentidos que se pretendiam. Assim, nada se realizava integralmente, nem o ódio, nem o amor, nem os outros movimentos de menor intensidade. Só seria admitida a possibilidade de um sucesso completo, caso a natureza obscura desse “mistério” fosse revelada. Podia ser que então o equilíbrio pudesse ser tentado. Mas dentro das manifestações informes desse enigma, entre o temor e a angústia, achava-se estabelecido o próprio centro negativo de repulsão, que não permitia senão um amor incompleto e um ódio sem conhecimento das suas próprias forças."
"[Canção da Revolta] ...E se piedade vos sobrar, tende piedade vossa que não sois assim tão poderoso. Que vossos filhos são degenerados, porque não soubestes ser pai e eles se perverteram. Tende piedade vossa que cometestes erro ainda maior: Aprisionastes almas de poetas em corpos de homens. Tende piedade vossa que os feitos à vossa semelhança são vampiros insaciáveis. Tende piedade vossa que há gente com fome, gente com medo, gente com sede e frio, e um dia essa fome se transforma em ódio, esse medo vai se defender e atacar, essa sede vai ser de vosso sagrado sangue, esse frio vai querer se aquecer no calor da revolta. E se mais piedade vos sobrar, tende piedade vossa que não sois o deus carinhoso com que eu sonhei Que sois mal e vingativo, que castigais quando devíeis perdoar. E se piedade vos sobrar tende piedade vossa, que necessitais muito mais de pena do que nós, míseros sofredores."
"“Oh! Por que viver eternamente criando laços que não podiam existir? Por que fermentar em torno de si um ambiente que não podia durar, um clima que não resistiria aos embates da vida? Por que se apegar tão encarniçadamente a pessoas que só lhe poderiam fazer sofrer mais? Que miséria, a de se ter um coração feito para o amor...”"
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