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"Crepúsculo de Outono O crepúsculo cai, manso como uma bênção. Dir-se-á que o rio chora a prisão de seu leito... As grandes mãos da sombra evangélicas pensam As feridas que a vida abriu em cada peito. O outono amarelece e despoja os lariços. Um corvo passa e grasna, e deixa esparso no ar O terror augural de encantos e feitiços. As flores morrem. Toda a relva entra a murchar. Os pinheiros porém viçam, e serão breve Todo o verde que a vista espairecendo vejas, Mais negros sobre a alvura unânime da neve, Altos e espirituais como flechas de igrejas. Um sino plange. A sua voz ritma o murmúrio Do rio, e isso parece a voz da solidão. E essa voz enche o vale... o horizonte purpúreo... Consoladora como um divino perdão. O sol fundiu a neve. A folhagem vermelha Reponta. Apenas há, nos barrancos retortos, Flocos, que a luz do poente extática semelha A um rebanho infeliz de cordeirinhos mortos. A sombra casa os sons numa grave harmonia. E tamanha esperança e uma tão grande paz Avultam do clarão que cinge a serrania, Como se houvesse aurora e o mar cantando atrás."

"Belo Belo Belo belo belo, Tenho tudo quanto quero. Tenho o fogo de constelações extintas há milênios. E o risco brevíssimo — que foi? passou — de tantas estrelas cadentes. A aurora apaga-se, E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora. O dia vem, e dia adentro Continuo a possuir o segredo grande da noite. Belo belo belo, Tenho tudo quanto quero. Não quero o êxtase nem os tormentos. Não quero o que a terra só dá com trabalho. As dádivas dos anjos são inaproveitáveis: Os anjos não compreendem os homens. Não quero amar, Não quero ser amado. Não quero combater, Não quero ser soldado. — Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples."

"A Canção das Lágrimas de Pierrot I A sala em espelhos brilha Com lustres de dez mil velas. Miríades de rodelas Multicores - maravilha! - Torvelhinham no ar que alaga O cloretilo e se toma Daquele mesclado aroma De carnes e de bisnaga. E rodam mais que confete, Em farândolas quebradas, cabeças desassisadas Por Colombina ou Pierrete II Pierrot entra em salto súbito. Upa! Que força o levanta? E enquanto a turba se espanta, Ei-lo se roja em decúbito. A tez, antes melancólica, Brilha. A cara careteia. Canta. Toca. E com tal veia, com tanta paixão diabólica, Tanta, que se lhe ensanguentam Os dedos. Fibra por fibra, Toda a sua essência vibra Nas cordas que se arrebentam. III Seu alaúde de plátano Milagre é que não se quebre. E a sua fronte arde em febre, Ai dele! e os cuidados matam-no. Ai dele! e essa alegria, Aquelas canções, aquele Surto não é mais, ai dele! Do que uma imensa ironia. Fazendo à cantiga louca Dolorido contracanto, Por dentro borbulha o pranto Como outra voz de outra boca: IV - "Negaste a pele macia À minha linda paixão E irás entregá-la um dia Aos feios vermes do chão... "Fiz por ver se te podia Amolecer - e não pude! Em vão pela noite fria Devasto o meu alaúde... "Minha paz, minha alegria, Minha coragem, roubaste-mas... E hoje a minh'alma sombria É como um poço de lástimas..." V Corre após a amada esquiva. Procura o precário ensejo De matar o seu desejo Numa carícia furtiva. E encontrando-o Colombina, Se lhe dá, lesta, socapa, Em vez de beijo um tapa, O pobre rosto ilumina-se-lhe! Ele que estava de rastros, Pula, e tão alto se eleva, Como se fosse na treva Romper a esfera dos astros!..."

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