"Crepúsculo de Outono O crepúsculo cai, manso como uma bênção. Dir-se-á que o rio chora a prisão de seu leito... As grandes mãos da sombra evangélicas pensam As feridas que a vida abriu em cada peito. O outono amarelece e despoja os lariços. Um corvo passa e grasna, e deixa esparso no ar O terror augural de encantos e feitiços. As flores morrem. Toda a relva entra a murchar. Os pinheiros porém viçam, e serão breve Todo o verde que a vista espairecendo vejas, Mais negros sobre a alvura unânime da neve, Altos e espirituais como flechas de igrejas. Um sino plange. A sua voz ritma o murmúrio Do rio, e isso parece a voz da solidão. E essa voz enche o vale... o horizonte purpúreo... Consoladora como um divino perdão. O sol fundiu a neve. A folhagem vermelha Reponta. Apenas há, nos barrancos retortos, Flocos, que a luz do poente extática semelha A um rebanho infeliz de cordeirinhos mortos. A sombra casa os sons numa grave harmonia. E tamanha esperança e uma tão grande paz Avultam do clarão que cinge a serrania, Como se houvesse aurora e o mar cantando atrás."
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Ver todas"Belo Belo Belo belo belo, Tenho tudo quanto quero. Tenho o fogo de constelações extintas há milênios. E o risco brevíssimo — que foi? passou — de tantas estrelas cadentes. A aurora apaga-se, E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora. O dia vem, e dia adentro Continuo a possuir o segredo grande da noite. Belo belo belo, Tenho tudo quanto quero. Não quero o êxtase nem os tormentos. Não quero o que a terra só dá com trabalho. As dádivas dos anjos são inaproveitáveis: Os anjos não compreendem os homens. Não quero amar, Não quero ser amado. Não quero combater, Não quero ser soldado. — Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples."
"Soneto Inglês nº2 Aceitar o castigo imerecido não por fraqueza, mas por altivez. no tormento mais fundo o teu gemido trocar num grito de ódio a que o fez. As delícias da carne e pensamento com que o instinto da espécie nos engana, sobpor ao generoso sentimento de uma afeição mais simplesmente humana. Não tremer de esperança e nem de espanto. Nada pedir nem desejar senão a coragem De ser um novo santo. sem fé num mundo além do mundo. E então morrer sem uma lágrima que a vida Não vale a pena e a dor de ser vivida."
"Renúncia Chora de manso e no íntimo... procura Tentar curtir sem queixa o mal que te crucia: O mundo é sem piedade e até riria Da tua inconsolável amargura. Só a dor enobrece e é grande e é pura. Aprende a amá-la que a amarás um dia. Então ela será tua alegria, E será ela só tua ventura... A vida é vã como a sombra que passa Sofre sereno e de alma sombranceira Sem um grito sequer tua desgraça. Encerra em ti tua tristeza inteira E pede humildemente a Deus que a faça Tua doce e constante companheira..."
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