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"Quase Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe de asa... Se ao menos eu permanecesse aquém... Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído Num grande mar enganador de espuma; E o grande sonho despertado em bruma, O grande sonho - ó dor! - quase vivido... Quase o amor, quase o triunfo e a chama, Quase o princípio e o fim - quase a expansão... Mas na minh'alma tudo se derrama... Entanto nada foi só ilusão! De tudo houve um começo ... e tudo errou... — Ai a dor de ser — quase, dor sem fim... Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim, Asa que se elançou mas não voou... Momentos de alma que,desbaratei... Templos aonde nunca pus um altar... Rios que perdi sem os levar ao mar... Ânsias que foram mas que não fixei... Se me vagueio, encontro só indícios... Ogivas para o sol — vejo-as cerradas; E mãos de herói, sem fé, acobardadas, Puseram grades sobre os precipícios... Num ímpeto difuso de quebranto, Tudo encetei e nada possuí... Hoje, de mim, só resta o desencanto Das coisas que beijei mas não vivi... Um pouco mais de sol — e fora brasa, Um pouco mais de azul — e fora além. Para atingir faltou-me um golpe de asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..."

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"Das Sete Canções de Declíno Um frenesi hialino arrepiou Pra sempre a minha carne e a minha vida. Foi um barco de vela que parou Em súbita baía adormecida... Baía embandeirada de miragem, Dormente de ópio, de cristal e anil. Na ideia de um país de gaze e Abril, Em duvidosa e tremulante imagem... Parou ali a barca – e, ou fosse encanto, Ou preguiça, ou delírio, ou esquecimento, Não mais aparelhou... – ou fosse o vento Propício que faltasse: ágil e santo... ...Frente ao porto esboçara-se a cidade, Descendo enlanguescida e preciosa: As cúpulas de sombra cor de rosa As torres de platina e de saudade. Avenidas de seda deslizando, Praças de honra libertas sobre o mar... Jardins onde as flores fossem luar; Lagos – carícias de âmbar flutuando... Os palácios a rendas e escumalha, De filigrana e cinza as catedrais – Sobre a cidade a luz – esquiva poalha Tingindo-se através longos vitrais... Vitrais de sonho a debruá-la em volta, A isolá-la em lenda marchetada: Uma Veneza de capricho – solta, Instável, dúbia, pressentida, alada... Exílio branco – a sua atmosfera, Murmúrio de aplausos – seu brou-há-há... E na Praça mais larga, em frágil cera, Eu – a estátua que nunca tombará..."

"Fim Quando eu morrer batam em latas, Rompam aos saltos e aos pinotes, Façam estalar no ar chicotes, Chamem palhaços e acrobatas! Que o meu caixão vá sobre um burro Ajaezado à andaluza... A um morto nada se recusa, Eu quero por força ir de burro."

"Perdi-me dentro de mim Porque eu era labirinto E hoje, quando me sinto, É com saudades de mim."

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