"Das Sete Canções de Declíno Um frenesi hialino arrepiou Pra sempre a minha carne e a minha vida. Foi um barco de vela que parou Em súbita baía adormecida... Baía embandeirada de miragem, Dormente de ópio, de cristal e anil. Na ideia de um país de gaze e Abril, Em duvidosa e tremulante imagem... Parou ali a barca – e, ou fosse encanto, Ou preguiça, ou delírio, ou esquecimento, Não mais aparelhou... – ou fosse o vento Propício que faltasse: ágil e santo... ...Frente ao porto esboçara-se a cidade, Descendo enlanguescida e preciosa: As cúpulas de sombra cor de rosa As torres de platina e de saudade. Avenidas de seda deslizando, Praças de honra libertas sobre o mar... Jardins onde as flores fossem luar; Lagos – carícias de âmbar flutuando... Os palácios a rendas e escumalha, De filigrana e cinza as catedrais – Sobre a cidade a luz – esquiva poalha Tingindo-se através longos vitrais... Vitrais de sonho a debruá-la em volta, A isolá-la em lenda marchetada: Uma Veneza de capricho – solta, Instável, dúbia, pressentida, alada... Exílio branco – a sua atmosfera, Murmúrio de aplausos – seu brou-há-há... E na Praça mais larga, em frágil cera, Eu – a estátua que nunca tombará..."
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Ver todas"GLOSAS Amor é chama que mata, Dizem todos com razão, É mal do coração E com ele se endoidece. O amor é um sorriso Sorriso que desfalece. Madeixa que se desata Denominam-no também. O amor não é um bem: Quem ama sempre padece. O amor é um perfume Perfume que se esvaece."
"Último Soneto Que rosas fugitivas foste ali! Requeriam-te os tapetes, e vieste... --- Se me dói hoje o bem que me fizeste, É justo, porque muito te devi. Em que seda de afagos me envolvi Quando entraste, nas tardes que apareceste! Como fui de percal quando me deste Tua boca a beijar, que remordi... Pensei que fosse o meu o teu cansaço --- Que seria entre nós um longo abraço O tédio que, tão esbelta, te curvava... E fugiste... Que importa? Se deixaste A lembrança violeta que animaste, Onde a minha saudade a Cor se trava?..."
"O Recreio Na minha Alma há um balouço Que está sempre a balouçar --- Balouço à beira dum poço, Bem difícil de montar... --- E um menino de bibe Sobre ele sempre a brincar... Se a corda se parte um dia (E já vai estando esgarçada), Era uma vez a folia: Morre a criança afogada... --- Cá por mim não mudo a corda, Seria grande estopada... Se o indez morre, deixá-lo... Mais vale morrer de bibe Que de casaca... Deixá-lo Balouçar-se enquanto vive... --- Mudar a corda era fácil... Tal ideia nunca tive..."
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