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"Não saber. Não há nada mais irritante do que respostas não-respostas. Engarrafamento irrita, trânsito de sexta-feira, buzina ignorante, gente contraditória, fila que não anda, vizinho com rádio potente e nenhum bom gosto irrita. Falta de educação, respostas atravessadas, atitude desnecessária, tudo isso. Mas nada mais desconcertante que um "não sei". "Não sei" é termo que não vale, "não sei" não é resposta, "não sei" não é cabível. Falo daquele "não sei" inteligente e esperto não o desprovido de informação. Aquele que é parente próximo do "talvez", vizinho do "pode ser", amigo fiel do "quem sabe". "Não sei" não rende assunto, não dá chance nem esperança. Não dá audiência. É preguiça, provocação. "Não sei" é arrancar as páginas de possibilidades e reflexões de um livro bom, é posição de impedimento, é tirar o corpo fora. Puro descaso, covardia. O boicote das justificativas. A alergia dos práticos. A úlcera dos ansiosos. É ter todas as respostas guardadas, preparadas, apontadas e ainda assim se esquivar. Ter a mancha de um crime nas mãos e negá-lo. "Não sei" é a fuga dos que não se comprometem. É vazio de sentido, tentativa frustrada de absolvição. Inconveniente, conservador, teste e tortura da paciência. "Não sei", piada mal contada. Cretina, infundada. Se esconde atrás da sombra e do suposto respaldo das abstenções. "Não sei" compactua com o "porque sim" e o "porque não" como escape de continuação do asssunto. Simbióticos e injustos. Tenta parar o trânsito da prosa, mas é atropelado pelas interrogações. É a pressa e o pecado da língua insana, o tormento das personalidades combativas, o desespero dos descordantes. "Não sei" é a negação do recurso. Não remete ao passado e não liga ao futuro, é a pedra no caminho da decisão, a pedra no sapato dos objetivos. "Não sei" como comodismo, escolha mais conveniente. Nada bobo o "não sei", bastante sábio. Um perigo, um abuso. Deveria ser censurado, abolido, abortado. Ahhh o "não sei"... descabido e desnecessário! Responda "não sei" pra mim e prepare-se para o show de questionamento. Tenha certeza de sua resposta, de sua falta de posição. Esteja seguro e armado. Armado de argumentação."

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"Dia Inteiro Pense num dia em que seu rosto já acalenta o cansaço semanal, que os bocejos são contínuos, que a palavra faxina é capaz de abalar a sua psique. Pensou na segunda-feira? Errou. Meu dia de ócio é o domingo. Vontade de fazer nada, dia de contemplar o teto. Não tem praia, festa em família e nem balada que me tire do ninho. Me convide às sextas. Barzinho, cinema, música. Emendaremos os sábados. Mas olha, domingo, não. Sabe aquele dia em que a sua maior vontade é de usar pijama o dia inteiro e esquecer de que tem cabelos para pentear? Pois então, bem vindos ao meu dia de domingo. Perco toda a vaidade. Inútil também arrumar a cama. Lá acordarei e regressarei por diversas vezes ao dia. Quase me transfiguro em sessão das grandes lojas: cama, mesa e banho. Aos domingos sou metade. Uma metade inteira de preguiça. Gosto de cozinhar mas preferirei comida pronta. Atualizarei minhas leituras, me entupirei de telecine. Nada de ponte Rio- Niterói, nada de trânsito, relatório, telefonemas, clientes. Muito mais que descansar da correria da semana. Preparar-se pra mais uma. Após tanta moleza, guardo energia pro desfecho. O único esforço é o do final do dia, vencer a batalha de posse do controle remoto: “Fantástico versus Pânico na tv”. Agrego minha cunhada como aliada pelas notícias. Meu irmão e namorado ficam no time oposto, prefiro acreditar que só pra nos contrariar. A disputa é acirrada, cheia de argumentações. E mesmo de meias, mesmo descabeladas, vencemos. Benditas sejam a inteligência e a articulação feminina. Forças renovadas para a nova semana."

"Meu amor é desobediente. Que fica quando mando ir embora, que não foge quando o tempo fecha. Que me cala a boca com beijo de cinema, que ouve atento quando descarrego meus discursos. Meu amor é desobediente e sabe se verter. Diz que pra cada versão da minha teimosia, tem uma dose nova de sentimento. Pra cada anúncio de cansaço, um motivo a mais pra cultivar e cuidar do que é raro de viver. Não sei de onde tira essas coisas, desconfio que rouba meus livros. Aqueles que falo pra não mexer. Mas não, desobediente que é, mexe com meu mundo e o coração."

"Não quero os amores mudos, que poupam expressões. Sou adepta dos telefonemas fora de hora com todos ou nenhum motivo pra acontecer, do cuidado cotidiano, do ócio compartilhado, dos beijos, abraços e amassos desavisados, não como selantes de uma briga mas como partes dela, contraditoriamente etapas de um confronto. Afetos e afagos em banco de praça, acampamento no meio da sala, dança improvisada. Declarações imprevisíveis, inéditas, impensáveis até pelo próprio fomentador, traído pelo coração tagarela. Dispenso os que se economizam."

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