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"Foram muitos dias nessa tortura, então entenda que percorri todas as rotas de fuga. Cheguei a procurar notícias suas pelos jornais, pois só um obituário justificaria tamanha demora em uma ligação. Enfim, por muito mais tempo do que desejaria, mantive na ponta da língua tudo o que eu devia te dizer, e tudo o que você merecia ouvir, e tudo. Mas você não ligou. Mando esta carta, portanto, sem esperar resposta. Nem sequer espero mais por nada, em coisa alguma, nesta vida, pra ser sincera. No que se refere a você, especialmente, porque o vazio do seu sumiço já me preenche; tenho nele um conforto que motivos não me trarão. Não me responda, então, mesmo que deseje. Não quero um retorno; quis, um dia, uma ida. Que não aconteceu, assim deixemos para lá. Estaria, entretanto, mentindo se não dissesse que, aqui dentro, ainda me corrói uma pequena curiosidade. Pois não é todo dia que uma pessoa não vai e não liga, é? As pessoas guardam esses grandes vacilos para momentos especiais, não guardam? Então, eis a minha única curiosidade: você às vezes pensa nisso, como eu penso? Com um suave aperto no coração? Ou será que você foi apenas um idiota que esquecei de ir?"

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"Somos arquietípicos, ridículos, etéreos e nunca comuns. comuns são os casais, nós não somos nada."

"Sobre a Solidão Entender é trancar-se dentro da palavra. Quem não sabe, quem não sabe, quem não quer saber de nada gruda a língua no céu da boca, não escuta e finge que não vê. Entender é um outro nível da ignorância. Bastaria um toque se fôssemos livres. Não é preciso nenhum livro para quem pode não ler. Se quisermos, amiga, não entendemos nada... Tem quem prefira os beijos às palavras. Tem quem não viva sem um off dizendo não, o tempo todo. Tem gente de tudo o que é tipo. Só não devemos viver sem o sentido, sem a realidade, o objeto, o eu e o você. Somos infelizes. Jamais sobreviveríamos à liberdade de leves e inconsequentes ações. - Vamos, vamos logo subir essa escada que leva o amor ao último andar. Estamos descalços e o mármore gela os nossos pés. Sobe pelo corpo o tremor do castelo que desmorona. Então vamos, segura firme no corrimão. Respire fundo. Subir tão alto dá vertigem e olhar para trás deixaria-nos cegos. Os erros são medusas intransigentes, arrancam as nossas lembranças boas e tatuam os desaforos e mágoas. Por isso, marche! Ainda estou contigo. Para ir até o fim da paixão deve-se estar acompanhado. Sinta o meu perfume enquanto o vento do tempo sopra esse bafo de mudança. Se quiser, dou-lhe o braço. Entraremos no salão da grande dança. A quadrilha dos desafortunados só começa quando o poeta recita a dor de um adeus. Pronto. Mais alguns passos e poderemos nos soltar no espaço. Livres. Serenos. E tristes. Vamos logo. Não há mesmo como evitar a covardia. Não há coragem para se ir até o fundo. É isso, meu amor, agora só mais um degrau e você estará – de novo – em paz com o seu coração vazio. Por isso, vamos! O nada não inspira, não treme os sexos, não dá calafrios, nem ciúmes; Não cria o ódio, nem teme o abandono. Ali você poderá descansar sem culpa, remorsos, sonhos estúpidos. Amar proibido é muito. Causa tanto estrago... E por isso, por tudo isso, vamos! No final devo pedir perdão por tê-lo tocado. Agora pode largar a minha mão. Pode partir. Lembre-se ou esqueça-se de mim. Coração quebrado tem cura: a paz de não precisar mais aguardar a perfeição que não existe."

"Eu? Eu não sou somente boa. Sou uma pessoa muito bonita. Generosa e linda – e quem aguentar, aguentou. Como prêmio, terá meu amor. Saberá da minha verdade. Dará boas gargalhadas. Mas terá que suportar uma boa dose daquilo que sinto. Pois, apesar de tudo ser diversão, nada é simples. Nada é pouco quando o mundo é o meu."

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