"Por trás do que lembro, ouvi de uma terra desertada, vaziada, não vazia, mais que seca, calcinada. De onde tudo fugia, onde só pedra é que ficava, pedras e poucos homens com raízes de pedra, ou de cabra. Lá o céu perdia as nuvens, derradeiras de suas aves; as árvores, a sombra, que nelas já não pousava. Tudo o que não fugia, gaviões, urubus, plantas bravas, a terra devastada ainda mais fundo devastava."
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Ver todas"Mesmo sem querer fala em verso Quem fala a partir da emoção"
"Rasas na altura da água começam a chegar as ilhas. Muitas a maré cobre e horas mais tarde ressuscita (sempre depois que afloram outra vez à luz do dia voltam com chão mais duro do que o que dantes havia). Rasas na altura da água vê-se brotar outras ilhas: ilhas ainda sem nome, ilhas ainda não de todo paridas. Ilha Joana Bezerra, do Leite, do Retiro, do Maruim: o touro da maré a estas já não precisa cobrir."
"Tecendo a manhã Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro; de um outro galo que apanhe o grito de um galo antes e o lance a outro; e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo, para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os galos. E se encorpando em tela, entre todos, se erguendo tenda, onde entrem todos, se entretendendo para todos, no toldo (a manhã) que plana livre de armação. A manhã, toldo de um tecido tão aéreo que, tecido, se eleva por si: luz balão."
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