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"Solidão Aproximo-me da noite o silêncio abre os seus panos escuros e as coisas escorrem por óleo frio e espesso Esta deveria ser a hora em que me recolheria como um poente no bater do teu peito mas a solidão entra pelos meus vidros e nas suas enlutadas mãos solto o meu delírio É então que surges com teus passos de menina os teus sonhos arrumados como duas tranças nas tuas costas guiando-me por corredores infinitos e regressando aos espelhos onde a vida te encarou Mas os ruídos da noite trazem a sua esponja silenciosa e sem luz e sem tinta o meu sonho resigna Longe os homens afundam-se com o caju que fermenta e a onda da madrugada demora-se de encontro às rochas do tempo"

"Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar,um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez. Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios. (Em 'Antes do Nascer do Mundo')"

"O POETA O poeta não gosta de palavras: escreve para se ver livre delas. A palavra torna o poeta pequeno e sem invenção. Quando, sobre o abismo da morte, o poeta escreve terra, na palavra ele se apaga e suja a página de areia. Quando escreve sangue o poeta sangra e a única veia que lhe dói é aquela que ele não sente. Com raiva, o poeta inicia a escrita como um rio desflorando o chão. Cada palavra é um vidro em que se corta. O poeta não quer escrever. Apenas ser escrito. Escrever, talvez, apenas enquanto dorme."

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