"O POETA O poeta não gosta de palavras: escreve para se ver livre delas. A palavra torna o poeta pequeno e sem invenção. Quando, sobre o abismo da morte, o poeta escreve terra, na palavra ele se apaga e suja a página de areia. Quando escreve sangue o poeta sangra e a única veia que lhe dói é aquela que ele não sente. Com raiva, o poeta inicia a escrita como um rio desflorando o chão. Cada palavra é um vidro em que se corta. O poeta não quer escrever. Apenas ser escrito. Escrever, talvez, apenas enquanto dorme."
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Ver todas"O BEIJO E A LÁGRIMA Quero um beijo, pediu ela. Um sismo abalou o peito dele. E devotou o calor de lava dos seus lábios, entontecida água na cascata. Entusiamado, ele se preparou para, de novo, duplicar o corpo e regressar à vertigem do beijo. Mas ela o fez parar. Só queria um beijo. Um único beijo para chorar. Há anos que não pranteava. E a sua alma se convertia em areia do deserto. Encantada, ela no dedo recolheu a lágrima. E se repetiu o gesto com que Deus criou o Oceano."
"A miçanga, todos as vêem. Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as miçangas. Também assim é a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo."
"Poema Mestiço escrevo mediterrâneo na serena voz do Índico sangro norte em coração do sul na praia do oriente sou areia náufraga de nenhum mundo hei-de começar mais tarde por ora sou a pegada do passo por acontecer..."
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