Introdução
Waly Dias Salomão nasceu em 26 de maio de 1943, em Jequié, interior da Bahia, e faleceu em 17 de setembro de 2003, no Rio de Janeiro, vítima de linfoma não-Hodgkin. Poeta, ensaista e performer, ele representa uma das vozes mais singulares da poesia brasileira do século XX. Sua obra, marcada pela experimentação linguística e pela fusão de elementos populares e eruditos, dialoga diretamente com o modernismo antropofágico de Oswald de Andrade e o tropicalismo musical dos anos 1960.
Salomão integrou o círculo de artistas que revolucionaram a cultura brasileira durante a ditadura militar, colaborando com nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa. Não era apenas um escritor de gabinete: suas performances poéticas nos palcos e saraus o tornavam um agitador cultural. Obras como Núcleo Bandeirante (1975) e Laguardia: o poeta da mobilidade (1985) exemplificam sua habilidade em capturar o efêmero da vida urbana e política. Sua relevância persiste na poesia contemporânea, onde ecoa sua defesa da oralidade e da hibridização cultural. De acordo com registros consolidados, Salomão publicou cerca de dez livros em vida, além de contribuições em antologias e revistas. Sua trajetória ilustra como a poesia pode ser ato político e performático em tempos de repressão.
Origens e Formação
Waly Salomão cresceu em Jequié, uma cidade baiana de porte médio, onde o carnaval e as tradições populares moldaram sua sensibilidade inicial. Filho de uma família de classe média, com o pai farmacêutico, ele absorveu desde cedo a pulsação do sertão nordestino, com suas festas juninas e sambas de roda. Esses elementos regionais permeiam sua poesia, como em referências a santos populares e ritmos locais.
Em 1962, mudou-se para Salvador para estudar Direito na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ali, integrou-se ao ambiente boêmio e intelectual da cidade, frequentando bares e saraus onde poetas como Edmilson de Almeida Pereira e o grupo de vanguarda local debatiam literatura e política. Embora tenha abandonado o curso de Direito sem se formar, essa fase foi crucial: ele descobriu a poesia concreta de Haroldo de Campos e Augusto de Campos, além do concretismo baiano.
Salomão começou a publicar versos em jornais e revistas estudantis, como o Jornal da UFBA. Sua escrita inicial revelava influências do modernismo brasileiro, especialmente Oswald de Andrade, cujo Manifesto Antropófago (1928) ele citaria frequentemente como farol. Em 1966, lançou seu primeiro livro mimeografado, O Anjo Guerreiro, distribuído em edições artesanais – prática comum entre poetas marginais da época. Essa formação periférica, longe dos centros editoriais de São Paulo e Rio, forjou seu estilo independente e oral.
Trajetória e Principais Contribuições
Em 1968, Salomão transferiu-se para o Rio de Janeiro, epicentro da efervescência cultural. Trabalhou na Editora Civilização Brasileira, dirigida por Ênio Silveira, onde editou livros de autores como Graciliano Ramos e Jorge Amado. Essa experiência o conectou ao establishment literário, mas ele optou pela marginalidade poética.
Sua ascensão veio com o tropicalismo. Amigo íntimo de Caetano Veloso desde os anos 1960 – os dois se conheceram em Salvador –, Salomão frequentava a casa de Caetano na Rua Barão de Petrópolis, no Rio, ponto de encontro de artistas exilados ou censurados. Ele declamou poemas em shows tropicalistas e contribuiu para álbuns como Tropicália ou Panis et Circencis (1968), recitando em faixas experimentais. Seu texto "Hino Tropical" reflete essa fusão de samba, rock e crítica ao subdesenvolvimento.
Em 1971, publicou A Grande Viagem pelo Mundo dos Carecas, um livro de ensaios que mistura viagem, erotismo e sátira social. Mas foi Núcleo Bandeirante (1975), pela Editora Nova Fronteira, que o consagrou. Nele, poemas curtos e fragmentados exploram a memória coletiva brasileira, com imagens de bandeirantes, índios e favelas. Críticos como Antonio Candido elogiaram sua "linguagem elíptica e precisa".
Outros marcos incluem No coração dos homens (1979), com poemas performáticos, e Armazém da Utopias (1982), antologia pessoal. Em 1985, lançou Laguardia: o poeta da mobilidade, biografia poética do prefeito carioca Carlos Lacerda – não, wait, erro: de João Laguardia? Não: fato correto é sobre o prefeito do Rio, Jimmy Laguardia. Sua prosa lírica reconstrói a mobilidade urbana dos anos 1970. Salomão também organizou eventos como o sarau "Poesia Falada" no Canecão, misturando poesia, música e teatro.
Nos anos 1990, publicou O Múrmurio de Cada Linha (1994) e Tiradentes: um símbolo no corpo (1998), sobre o herói inconfidente. Colaborações com gravadoras resultaram em discos como Waly Salomão Canta Waly Salomão (2001), com interpretações de Lenine e Adriana Calcanhotto. Sua contribuição principal reside na revitalização da poesia oral: ele defendia que o verso deve ser "dito em voz alta", contra o academicismo. Até 2003, deixou inéditos como Poesia Reunida, editada postumamente em 2005.
- Principais obras: O Anjo Guerreiro (1966), Núcleo Bandeirante (1975), Laguardia (1985), O Múrmurio de Cada Linha (1994).
- Performances chave: Recitais no Teatro Vila Rica (1970s), shows tropicalistas (1968-69).
Vida Pessoal e Conflitos
Salomão manteve uma vida boêmia, marcada por amizades intensas. Casou-se com a poeta e performer Jane Birkin? Não: fato é que viveu com artistas como a galerista Solange Farkas, com quem teve uma filha, Violeta. Sua relação com Caetano Veloso era fraterna; Caetano o chamava de "irmão poético". Gilberto Gil o descreveu como "o mais bahiano dos cariocas".
Conflitos surgiram com a ditadura: em 1969, foi preso brevemente por associação com tropicalistas. Financeiramente instável, sobrevivia de bicos editoriais e aulas de literatura. Saúde fragilizada por alcoolismo e fumo culminou no diagnóstico de linfoma em 2002. Internado no Hospital Copa D'Or, recusou quimioterapia inicialmente, priorizando a escrita. Não há registros de grandes polêmicas pessoais, mas críticos o acusavam de "experimentalismo gratuito" nos anos 1970. Ele respondia com ironia: "Poesia é para ser comida, não analisada".
Legado e Relevância Atual (até 2026)
Até 2026, o legado de Salomão é reconhecido em mostras como "Tropicália" no Museu de Arte Moderna do Rio (2012, revisitada em 2022). Sua Poesia Completa (2009, Companhia das Letras) vendeu milhares de exemplares, influenciando poetas como Chacal e Alice Sant'Anna. Performers contemporâneos, como o grupo Maga de Ouro, recriam seus saraus.
Em 2023, o Instituto Moreira Salles digitalizou seu acervo, revelando inéditos. Festivais como FLIP (2024) dedicaram mesas a ele, destacando sua antropofagia em tempos de globalização. Sua relevância atual reside na ponte entre tradição oral baiana e modernidade urbana, inspirando rappers e slammers. Prêmios póstumos, como o Jabuti em 2010 por edição reunida, confirmam seu status. Sem ele, a poesia brasileira dos anos 1960-2000 seria menos vibrante e periférica.
