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Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes (1913-1980) foi um poeta, compositor, dramaturgo, jornalista, roteirista e diplomata brasileiro.

347 pensamentos
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Frases - Página 24

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"Soneto da Mulher ao Sol Uma mulher ao sol - eis todo o meu desejo Vinda do sal do mar, nua, os braços em cruz A flor dos lábios entreaberta para o beijo A pele a fulgurar todo o pólen da luz. Uma linda mulher com os seios em repouso Nua e quente de sol - eis tudo o que eu preciso O ventre terso, o pêlo umido, e um sorriso À flor dos lábios entreabertos para o gozo. Uma mulher ao sol sobre quem me debruce Em quem beba e a quem morda, com quem me lamente E que ao se submeter se enfureça e soluce E tente me expelir, e ao me sentir ausente Me busque novamente - e se deixes a dormir Quando, pacificado, eu tiver de partir..."
"A você, com amor O amor é o murmúrio da terra quando as estrelas se apagam e os ventos da aurora vagam no nascimento do dia... O ridente abandono, a rútila alegria dos lábios, da fonte e da onda que arremete do mar... O amor é a memória que o tempo não mata, a canção bem-amada feliz e absurda... E a música inaudível... O silêncio que treme e parece ocupar o coração que freme quando a melodia do canto de um pássaro parece ficar... O amor é Deus em plenitude a infinita medida das dádivas que vêm com o sol e com a chuva seja na montanha seja na planura a chuva que corre e o tesouro armazenado no fim do arco-íris."
"Sei lá... a vida tem sempre razão Tem dias que eu fico Pensando na vida E sinceramente Não vejo saída Como é, por exemplo Que dá pra entender A gente mal nasce Começa a morrer Depois da chegada Vem sempre a partida Porque não há nada Sem separação Sei lá, sei lá A vida é uma grande ilusão Sei lá, Sei lá A vida tem sempre razão A gente nem sabe Que males se apronta Fazendo de conta Fingindo esquecer Que nada renasce Antes que se acabe E o sol que desponta Tem que anoitecer De nada adianta Ficar-se de fora A hora do sim É um descuido do não Sei lá, sei lá Só sei que é preciso paixão Sei lá, sei lá A vida tem sempre razão"
"A mulher carioca A gaúcha tem a fibra A mineira o encanto tem A baiana quando vibra Tem isso tudo e o céu também A capixaba bonita É de dar água na boca E a linda pernambucana Ai meu Deus, que coisa louca A mulher amazonense Quando é boa é até demais Mas a bela cearense Não fica nada pra trás A paulista tem a erva Além das graças que tem A nordestina conserva Toda a vida e o querer-bem... E a mulher carioca O que é que ela tem? Ela tem tanta coisa Que nem sabe que tem Ela tem um corpinho Que mais ninguém tem Ela faz um carinho Melhor que ninguém Ela tem passarinho Que vai e que vem Ela tem um jeitinho De nhen-nhen-nhen-nhen Ela tem, tem, tem..."
"A bênção, Bahia Olorô, Bahia Nós viemos pedir sua bênção, saravá! Hepa hê, meu guia Nós viemos dormir no colinho de lemanjá! Nanã Borokô fazer um Bulandê Efó, caruru e aluá Pimenta bastante pra fazer sofrer Bastante mulata para amar Fazer juntó Meu guia, hê Seu guia, hê Bahia! Saravá, senhora Nossa mãe foi-se embora pra sempre do Afojá A rainha agora É Oxum, é a mãe Menininha do Gantois Pedir à mãe Olga do Alakêto, hê Chamar Inhansã para dançar Xangô, rei Xangô, Kabueci-elê Meu pai! Oxalá, hepa babá! A bênção, mãe Senhora mãe Menina mãe Rainha! Olorô, Bahia Nós viemos pedir sua bênção, saravá! Hepa hê, meu guia Nós viemos dormir no colinho de lemanjá!"
"Ternura Eu te peço perdão por te amar de repente Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos Das horas que passei à sombra dos teus gestos Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos Das noites que vivi acalentado Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente. E posso te dizer que o grande afeto que te deixo Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas Nem as misteriosas palavras dos véus da alma... É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias E só te pede que te repouses quieta, muito quieta E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar estático da aurora."
"Tenderness I ask your pardon for loving you suddenly Although my love is an old song in your ears Of hours spent in the shadow of your gestures Drinking in the scent of your mouth smiles The nights that I lived cherishing By the grace unspeakable of your footsteps forever fleeing I bring the sweetness who accept wistfully. And I can tell you that the great affection that let you It brings the tears of exasperation nor the fascination of the promises Neither the mysterious words the veils of the soul ... It is a quiet, an anointing, an overflow of fondling And I only ask that you rested quietly, very quiet And let your hands warm at night find without fatality the static look of dawn."
"A ausente Amiga, infinitamente amiga Em algum lugar teu coração bate por mim Em algum lugar teus olhos se fecham à idéia dos meus. Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas Como que cega ao meu encontro... Amiga, última doçura A tranqüilidade suavizou a minha pele E os meus cabelos. Só meu ventre Te espera, cheio de raízes e de sombras. Vem, amiga Minha nudez é absoluta Meus olhos são espelhos para o teu desejo E meu peito é tábua de suplícios Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim Como no mar, vem nadar em mim como no mar Vem te afogar em mim, amiga minha Em mim como no mar..."
"Mais Um Adeus Composição: Vinicius de Moraes / Toquinho Mais um adeus Uma separação Outra vez, solidão Outra vez, sofrimento Mais um adeus Que não pode esperar O amor é uma agonia Vem de noite, vai de dia É uma alegria E de repente Uma vontade de chorar Contraponto Olha, benzinho, cuidado Com o seu resfriado Não pegue sereno Não tome gelado O gim é um veneno Cuidado, benzinho Não beba demais Se guarde para mim A ausência é um sofrimento E se tiver um momento Me escreva um carinho E mande o dinheiro Pro apartamento Porque o vencimento Não é como eu: Não pode esperar O amor é uma agonia Vem de noite, vai de dia É uma alegria E de repente Uma vontade de chorar"
"Uma música que seja... ...Como os mais belos harmônicos da natureza. Uma música que seja como o som do vento na cordoalha dos navios, aumentando gradativamente de tom até atingir aquele em que se cria uma reta ascendente para o infinito. Uma música que comece sem começo e termine sem fim. Uma música que seja como o som do vento numa enorme harpa plantada no deserto. Uma música que seja como a nota lancinante deixada no ar por um pássaro que morre. Uma música que seja como o som dos altos ramos das grandes árvores vergastadas pelos temporais. Uma música que seja como o ponto de reunião de muitas vozes em busca de uma harmonia nova. Uma música que seja como o vôo de uma gaivota numa aurora de novos sons..."
"E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor."
"Ai, quem me dera Ai quem me dera, terminasse a espera E retornasse o canto simples e sem fim... E ouvindo o canto se chorasse tanto Que do mundo o pranto se estancasse enfim Ai quem me dera percorrer estrelas Ter nascido anjo e ver brotar a flor Ai quem me dera uma manhã feliz Ai quem me dera uma estação de amor Ah! Se as pessoas se tornassem boas E cantassem loas e tivessem paz E pelas ruas se abraçassem nuas E duas a duas fossem ser casais Ai quem me dera ao som de madrigais Ver todo mundo para sempre afins E a liberdade nunca ser demais E não haver mais solidão ruim Ai quem me dera ouvir o nunca mais Dizer que a vida vai ser sempre assim E finda a espera ouvir na primavera Alguem chamar por mim..."