"A você, com amor O amor é o murmúrio da terra quando as estrelas se apagam e os ventos da aurora vagam no nascimento do dia... O ridente abandono, a rútila alegria dos lábios, da fonte e da onda que arremete do mar... O amor é a memória que o tempo não mata, a canção bem-amada feliz e absurda... E a música inaudível... O silêncio que treme e parece ocupar o coração que freme quando a melodia do canto de um pássaro parece ficar... O amor é Deus em plenitude a infinita medida das dádivas que vêm com o sol e com a chuva seja na montanha seja na planura a chuva que corre e o tesouro armazenado no fim do arco-íris."
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Ver todas"A anunciação Virgem! filha minha De onde vens assim Tão suja de terra Cheirando a jasmim A saia com mancha De flor carmesim E os brincos da orelha Fazendo tlintlin? Minha mãe querida Venho do jardim Onde a olhar o céu Fui, adormeci. Quando despertei Cheirava a jasmim Que um anjo esfolhava Por cima de mim..."
"Para viver um grande amor Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor. Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor. Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor. Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor. Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor. Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor. Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor. É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor... Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor? Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor. É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor. Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva escura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor."
"O poeta aprendiz Ele era um menino Valente e caprino Um pequeno infante Sadio e grimpante. Anos tinha dez E asinhas nos pés Com chumbo e bodoque Era plic e ploc. O olhar verde-gaio Parecia um raio Para tangerina Pião ou menina. Seu corpo moreno Vivia correndo Pulava no escuro Não importa que muro E caía exato Como cai um gato. No diabolô Que bom jogador Bilboquê então Era plim e plão. Saltava de anjo Melhor que marmanjo E dava o mergulho Sem fazer barulho. No fundo do mar Sabia encontrar Estrelas, ouriços E até deixa-dissos. Às vezes nadava Um mundo de água E não era menino Por nada mofino Sendo que uma vez Embolou com três. Sua coleção De achados do chão Abundava em conchas Botões, coisas tronchas Seixos, caramujos Marulhantes, cujos Colocava ao ouvido Com ar entendido Rolhas, espoletas E malacachetas Cacos coloridos E bolas de vidro E dez pelo menos Camisas-de-vênus. Em gude de bilha Era maravilha E em bola de meia Jogando de meia – Direita ou de ponta Passava da conta De tanto driblar. Amava era amar. Amava sua ama Nos jogos de cama Amava as criadas Varrendo as escadas Amava as gurias Da rua, vadias Amava suas primas Levadas e opimas Amava suas tias De peles macias Amava as artistas Das cine-revistas Amava a mulher A mais não poder. Por isso fazia Seu grão de poesia E achava bonita A palavra escrita. Por isso sofria. Da melancolia De sonhar o poeta Que quem sabe um dia Poderia ser. Montevidéu, 02.11.1958 in Para viver um grande amor (crônicas e poemas) in Poesia completa e prosa: "A lua de Montevidéu" in Poesia completa e prosa: "Cancioneiro""
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