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Rainer Maria Rilke

Rainer Maria Rilke

Rainer Maria Rilke (1875 - 1926) é considerado como um dos maiores poetas da literatura alemã. Suas obras experimentaram diferentes fases, mas com um incomparável estilo lírico.

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Frases - Página 5

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"Minha vida não é essa hora abrupta Em que me vês precipitado. Sou uma árvore ante meu cenário; Não sou senão uma de minhas bocas: Essa, dentre tantas, que será a primeira a fechar-se. Sou o intervalo entre as duas notas Que a muito custo se afinam, Porque a da morte quer ser mais alta… Mas ambas, vibrando na obscura pausa, Reconciliaram-se. E é lindo o cântico. \\\\ As folhas caem como se do alto caíssem, murchas, dos jardins do céu; caem com gestos de quem renuncia. E a terra, só, na noite de cobalto, cai de entre os astros na amplidão vazia. Caimos todos nós. Cai esta mão. Olha em redor: cair é a lei geral. E a terna mão de Alguém colhe, afinal, todas as coisas que caindo vão."
"(...)Amar também é bom:porque o amor é difícil. O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta,a maior e última prova,a obra para a qual todas as outras são apenas uma preparação. Por isso, pessoas jovens que ainda são estreantes em tudo,não sabem amar: tem que aprendê-lo. Com todo o seu ser,com todas as suas forças concentradas em seu coração solitário,medroso e palpitante,devem aprender a amar.Mas a aprendizagem é sempre uma longa clausura. Assim, para quem ama,o amor,por muito tempo e pela vida afora,é solidão, isolamento cada vez mais intenso e profundo.O amor, antes de tudo,não é o que se chama entregar-se,confundir-se, unir-se a outra pessoa.Que sentido teria, com efeito,a união com algo não esclarecido,inacabado, dependente? O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer,tornar-se algo em si mesmo,tornar-se um mundo para si,por causa de um outro ser;é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz,uma escolha e um chamado para longe. (...)Creio que aquele amor persiste tão forte e poderoso em sua memória justamente por ter sido sua primeira solidão profunda e o primeiro trabalho interior com que moldou a sua vida.(...) (Cartas a um jovem poeta)"
"O Anjo Com um mover da fronte ele descarta tudo o que obriga, tudo o que coarta, pois em seu coração, quando ela o adentra, a eterna Vinda os círculos concentra. O céu com muitas formas Ihe aparece e cada qual demanda: vem, conhece -. Não dês às suas mãos ligeiras nem um só fardo; pois ele, à noite, vem à tua casa conferir teu peso, cheio de ira, e com a mão mais dura, como se fosses sua criatura, te arranca do teu molde com desprezo. \\\\ O Cego Ele caminha e interrompe a cidade, que não existe em sua cela escura, como uma escura rachadura numa taça atravessa a claridade. Sombras das coisas, como numa folha, nele se riscam sem que ele as acolha: só sensações de tato, como sondas, captam o mundo em diminutas ondas: serenidade; resistência - como se à espera de escolher alguém, atento, ele soergue, quase em reverência, a mão, como num casamento. \\\\ O mundo estava no rosto da amada - O mundo estava no rosto da amada - e logo converteu-se em nada, em mundo fora do alcance, mundo-além. Por que não o bebi quando o encontrei no rosto amado, um mundo à mão, ali, aroma em minha boca, eu só seu rei? Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi. Mas eu também estava pleno de mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei. \\\ "No mundo, a coisa é determinada, na arte ela o deve ser mais ainda: subtraída a todo o acidente, libertada de toda a penumbra, arrebatada ao tempo e entregue ao espaço, ela se torna permanência, ela atinge a eternidade. (...)" § "Quero viver como se o meu tempo fosse ilimitado. Quero me recolher, me retirar das ocupações efêmeras. Mas ouço vozes, vozes benevolentes, passos que se aproximam e minhas portas se abrem..." § "Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite:"Sou mesmo forçado a escrever?" Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, a dizer o que vê, vive, ama e perde. (...)""
"- Que farás tu, meu Deus, se eu perecer? Que farás tu, meu Deus, se eu perecer? Eu sou o teu vaso - e se me quebro? Eu sou tua água - e se apodreço? Sou tua roupa e teu trabalho Comigo perdes tu o teu sentido. Depois de mim não terás um lugar Onde as palavras ardentes te saúdem. Dos teus pés cansados cairão As sandálias que sou. Perderás tua ampla túnica. Teu olhar que em minhas pálpebras, Como num travesseiro, Ardentemente recebo, Virá me procurar por largo tempo E se deitará, na hora do crepúsculo, No duro chão de pedra. Que farás tu, meu Deus? O medo me domina. /// - Hora Grave Quem agora chora em algum lugar do mundo, Sem razão chora no mundo, Chora por mim. Quem agora ri em algum lugar na noite, Sem razão ri dentro da noite, Ri-se de mim. Quem agora caminha em algum lugar no mundo, Sem razão caminha no mundo, Vem a mim. Quem agora morre em algum lugar no mundo, Sem razão morre no mundo, Olha para mim. \\\ O torso arcaico de Apolo Não conhecemos sua cabeça inaudita Onde as pupilas amadureciam. Mas Seu torso brilha ainda como um candelabro No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado Detém-se e brilha. Do contrário não poderia Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva Dos rins poderia chegar um sorriso Até aquele centro, donde o sexo pendia. De outro modo erger-se-ia esta pedra breve e mutilada Sob a queda translúcida dos ombros. E não tremeria assim, como pele selvagem. E nem explodiria para além de todas as fronteiras Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar Que não te mire: precisas mudar de vida. (Tradução: Paulo Quintela) - Que farás tu, meu Deus, se eu perecer? Que farás tu, meu Deus, se eu perecer? Eu sou o teu vaso - e se me quebro? Eu sou tua água - e se apodreço? Sou tua roupa e teu trabalho Comigo perdes tu o teu sentido. Depois de mim não terás um lugar Onde as palavras ardentes te saúdem. Dos teus pés cansados cairão As sandálias que sou. Perderás tua ampla túnica. Teu olhar que em minhas pálpebras, Como num travesseiro, Ardentemente recebo, Virá me procurar por largo tempo E se deitará, na hora do crepúsculo, No duro chão de pedra. Que farás tu, meu Deus? O medo me domina. (Tradução: Paulo Plínio Abreu) - Hora Grave Quem agora chora em algum lugar do mundo, Sem razão chora no mundo, Chora por mim. Quem agora ri em algum lugar na noite, Sem razão ri dentro da noite, Ri-se de mim. Quem agora caminha em algum lugar no mundo, Sem razão caminha no mundo, Vem a mim. Quem agora morre em algum lugar no mundo, Sem razão morre no mundo, Olha para mim. (Tradução: Paulo Plínio Abreu) Morgue Estão prontos, ali, como a esperar que um gesto só, ainda que tardio, possa reconciliar com tanto frio os corpos e um ao outro harmonizar; como se algo faltasse para o fim. Que nome no seu bolso já vazio há por achar? Alguém procura, enfim, enxugar dos seus lábios o fastio: em vão; eles só ficam mais polidos. A barba está mais dura, todavia ficou mais limpa ao toque do vigia, para não repugnar o circunstante. Os olhos, sob a pálpebra, invertidos, olham só para dentro, doravante. \\\ A Gazela Gazella Dorcas Mágico ser: onde encontrar quem colha duas palavras numa rima igual a essa que pulsa em ti como um sinal? De tua fronte se erguem lira e folha e tudo o que és se move em similar canto de amor cujas palavras, quais pétalas, vão caindo sobre o olhar de quem fechou os olhos, sem ler mais, para te ver: no alerta dos sentidos, em cada perna os saltos reprimidos sem disparar, enquanto só a fronte a prumo, prestes, pára: assim, na fonte, a banhista que um frêmito assustasse: a chispa de água no voltear da face."
"PRIMEIRA ELEGIA Quem se eu gritasse, me ouviria pois entre as ordens Dos anjos? E dado mesmo que me tomasse Um deles de repente em seu coração, eu sucumbiria Ante sua existência mais forte. Pois o belo não é Senão o início do terrível, que já a custo suportamos, E o admiramos tanto porque ele tranqüilamente desdenha Destruir-nos. Cada anjo é terrível. E assim me contenho pois, e reprimo o apelo De obscuro soluço. Ah! A quem podemos Recorrer então? Nem aos anjos nem aos homens, E os animais sagazes logo percebem Que não estamos muito seguros No mundo interpretado. Resta-nos talvez Alguma árvore na encosta que diariamente Possamos rever. Resta-nos a rua de ontem E a mimada fidelidade de um hábito, Que se compraz conosco e assim fica e não nos abandona. Ó e a noite, a noite, quando o vento cheio dos espaços Do mundo desgasta-nos o rosto -, para quem ela não é /sempre a desejada, Levemente decepcionante, que para o solitário coração Se impõe penosamente. Ela é mais leve para os amantes? Ah! Eles escondem apenas um com o outro a própria sorte. Não o sabes ainda? Atira dos braços o vazio Para os espaços que respiramos; talvez que os pássaros Sintam o ar mais vasto num vôo mais íntimo. Sim, as primaveras precisavam de ti.Muitas estrelas Esperavam que tu as percebesses. Do passado Erguia-se uma vaga aproximando-se, ou Ao passares sob uma janela aberta, Um violino se entregava. Tudo isso era missão. Mas a levaste ao fim? Não estavas sempre Distraído pela espera, como se tudo te ansiasse A bem amada? (onde queres abrigá-la Então, se os grandes e estranhos pensamentos entram E saem em ti e muitas vezes ficam pela noite.) Se a nostalgia te dominar, porém, cantas as amantes; muito Ainda falta para ser bastante imortal seu celebrado sentimento. Aquelas que tu quase invejaste, as desprezadas, que tu Achaste muito mais amorosas que as apaziguadas. Começa Sempre de novo o louvor jamais acessível; Pensa: o herói se conserva, mesmo a queda lhe foi Apenas um pretexto para ser : o seu derradeiro nascimento. As amantes, porém, a natureza exausta as toma Novamente em si, como se não houvesse duas vezes forças para realizá-las. Já pensaste pois em Gaspara Stampa O bastante para que alguma jovem, A quem o amante abandonou, diante do elevado exemplo Dessa apaixonada, sinta o desejo de tornar-se como ela? Essas velhíssimas dores afinal não se devem tornar Mais fecundas para nós? Não é tempo de nos libertarmos, Amando, do objeto amado e a ele tremendo resistirmos Como a flecha suporta à corda, para, concentrando-se no salto Ser mais do que ela mesma? Pois parada não há em /parte alguma. Vozes, vozes.Escuta, coração como outrora somente os santos escutavam: até que o gigantesco apelo levantava-os do chão; mas eles continuavam ajoelhados, inabaláveis, sem desviarem a atenção: eles assim escutavam. Não que tu pudesses suportar a voz de Deus, de modo algum. Mas escuta o sopro, a incessante mensagem que nasce do silêncio. Daqueles jovens mortos sobe agora um murmúrio em direção /a ti. Onde quer que penetraste, nas igrejas De Roma ou de Nápoles, seu destino não falou a ti, /tranqüilamente? Ou uma augusta inscrição não se impôs a ti Como recentemente a lousa em Santa Maria Formosa. Que eles querem de mim? Lentamente devo dissipar A aparência de injustiça que às vezes dificulta um pouco O puro movimento de seus espíritos. Certo, é estranho não habitar mais terra, Não mais praticar hábitos ainda mal adquiridos, Às rosas e outras coisas especialmente cheias de promessas Não dar sentido do futuro humano; O que se era, entre mãos infinitamente cheias de medo Não ser mais, e até o próprio nome Deixar de lado como um brinquedo quebrado. Estranho, não desejar mais os desejos. Estranho, Ver tudo o que se encadeava esvoaçar solto No espaço. E estar morto é penoso E cheio de recuperações, até que lentamente se divise Um pouco da eternidade. - Mas os vivos Cometem todos o erro de muito profundamente distinguir. Os anjos (dizem) não saberiam muitas vezes Se caminham entre vivos ou mortos. A correnteza eterna Arrebata através de ambos os reinos todas as idades Sempre consigo e seu rumor as sobrepuja em ambos. Finalmente não precisam mais de nós os que partiram cedo, Perde-se docemente o hábito do que é terrestre, como o /seio materno suavemente se deixa, ao crescer.Mas nós que de tão grandes mistérios precisamos, para quem do luto tantas vezes o abençoado progresso se origina - : poderíamos passar /sem eles? É vã a lenda de que outrora, lamentando Linos, A primeira música ousando atravessou o árido letargo, Que então no sobressaltado espaço, do qual um quase /divino adolescente escapou de súbito e para sempre, o vazio entrou naquela vibração que agora nos arrebata e consola e ajuda?"