"Acontece que me canso de meus pés e de minhas unhas, do meu cabelo e até da minha sombra. Acontece que me canso de ser homem. Todavia, seria delicioso assustar um notário com um lírio cortado ou matar uma freira com um soco na orelha. Seria belo ir pelas ruas com uma faca verde e aos gritos até morrer de frio. (...) Passeio calmamente, com olhos, com sapatos, com fúria e esquecimento, passo, atravesso escritórios e lojas ortopédicas, e pátios onde há roupa pendurada num arame: cuecas, toalhas e camisas que choram lentas lágrimas sórdidas."
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Pablo Neruda
Ricardo Eliecer Neftalí Reyes Basoalto (1904-1973), conhecido com o pseudônimo de Pablo Neruda, foi um poeta chileno.
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Frases - Página 8
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"Para meu coração basta teu peito para tua liberdade bastam minhas asas. Desde minha boca chegará até o céu o que estava dormindo sobre tua alma. E em ti a ilusão de cada dia. Chegas como o sereno às corolas. Escavas o horizonte com tua ausência Eternamente em fuga como a onda. Eu disse que cantavas no vento como os pinheiros e como os hastes. Como eles és alta e taciturna. e entristeces prontamente, como uma viagem. Acolhedora como um velho caminho. Te povoa ecos e vozes nostálgicas. eu despertei e as vezes emigram e fogem pássaros que dormiam em tua alma."
"Se eu morrer, sobrevive a mim com tamanha força que acordarás as fúrias do pálido e do frio, de sul a sul, ergue teus olhos indeléveis, de sol a sol sonha através de tua boca cantante. Não quero que tua risada ou teus passos hesitem. Não quero que minha herança de alegria morra. Não me chames. Estou ausente. Vive em minha ausência como em uma casa. A ausência é uma casa tão rápida que dentro passarás pelas paredes e pendurarás quadros no ar. A ausência é uma casa tão transparente que eu, morto, te verei, vivendo, e se sofreres, meu amor, eu morrerei novamente."
"Nada podem teus olhos doces, como nada puderam as estrelas que me abrasam os olhos e as faces. Escureceu-me a vista o mal de amor e na doce fonte do meu sonho outra fonte tremida se reflecte. Depois... Pergunta a Deus porque me deram o que me deram e porque depois conheci a solidão do céu e da terra. Olha, minha juventude foi um puro botão que ficou por rebentar e perde a sua doçura de seiva e de sangue. O sol que cai e cai eternamente cansou-se de a beijar... E o outono. Pai, nada podem teus olhos doces. E na noite imensa com as feridas de ambos seguirei."
"Não estejas longe de mim um só dia, porque como, porque, não sei dizê-lo, é comprido o dia, e te estarei esperando como nas estações quando em alguma parte dormitaram os trens. Não te vás por uma hora porque então nessa hora se juntam as gotas do desvelo e talvez toda a fumaça que anda buscando casa venha matar ainda meu coração perdido Ai que não se quebrante tua silhueta na areia, ai que não voem tuas pálpebras na ausência: não te vás por um minuto, bem-amada, porque nesse minuto terás ido tão longe que eu cruzarei toda a terra perguntando se voltarás ou se me deixarás morrendo"
"Manhã - Soneto XXIX Vens da pobreza das casas do SUL, das regiões duras com frio e terremotos que quando até seus deuses rodaram à morte nos deram a lição da vida na greda. És um cavalinha de greda negra, um beijo de barro escuro, amor, papoula de greda, pomba do crepúsculo que voou nos caminhos, alcanzia com lágrimas de nossa pobre infância. Moça, conservaste teu coração de pobre, teus pés de pobre acostumados às pedras, tua boca que nem sempre teve pão ou delícia. És do pobre Sul, de onde vem minha alma: em seu céu tua mãe segue lavando roupa com minha mãe. Por isso te escolhi, companheira."
"Ainda te Necessito Ainda não estou preparado para perder-te Não estou preparado para que me deixes só. Ainda não estou preparado pra crescer e aceitar que é natural, para reconhecer que tudo tem um princípio e tem um final. Ainda não estou preparado para não te ter e apenas te recordar Ainda não estou preparado para não poder te olhar ou não poder te falar. Não estou preparado para que não me abraces e para não poder te abraçar. Ainda te necessito. E ainda não estou preparado para caminhar por este mundo perguntando-me: Por quê? Não estou preparado hoje nem nunca o estarei. Ainda te Necessito."
"Virás comigo, disse sem que ninguém soubesse onde e como pulsava meu estado doloroso, e para mim não havia cravo nem barcarola, nada senão uma ferida pelo amor aberta. Repeti: vem comigo, como se morresse, e ninguém viu em minha boca a lua que sangrava, ninguém viu aquele sangue que subia ao silêncio. Oh, amor, agora esqueçamos a estrela com pontas! Por isso quando ouvi que tua voz repetia "Virás comigo", foi como se desatasses dor, amor, a fúria do vinho encarcerado que da sua cantina submergida soubesse e outra vez em minha boca senti um sabor de chama, de sangue e cravos, de pedra e queimadura."
"Plena mulher, maçã carnal, lua quente, espesso aroma de algas, lodo e luz pisados, que obscura claridade se abre entre tuas colunas? que antiga noite o homem toca com seus sentidos? Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas, com ar opresso e bruscas tempestades de farinha: amar é um combate de relâmpagos e dois corpos por um só mel derrotados. Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito, tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos, e o fogo genital transformado em delícia corre pelos tênues caminhos do sangue até precipitar-se como um cravo noturno, até ser e não ser senão na sombra de um raio."
"Quero quando eu morrer, tuas mãos em meus olhos: quero a luz, quero o trigo de tuas mãos amadas passar uma vez mais sobre mim essa doçura: sentir tua suavidade que mudou meu destino. Quero que vivas enquanto, adormecido, espero que teus olhos sigam ouvindo o vento, que sintas o perfume do mar que amamos juntos e que sigas pisando a areia que pisamos. Quero que o que amo siga vivo e a ti amei e cantei sobre todas as coisas, por isso segues florescendo, florida, para que alcances tudo o que meu amor te ordena, para que passeie minha sombra por teus cabelos, para que assim conheçam a razão de meu canto."
"Áspero amor, violeta coroada de espinhos, cipoal entre tantas paixões eriçado, lança das dores, corola da cólera, por que caminhos e como te dirigiste a minha alma? Por que precipitaste teu fogo doloroso, de repente, entre as folhas frias de meu caminho? Quem te ensinou os passos que até mim te levaram? Que flor, que pedra, que fumaça mostraram minha morada? O certo é que tremeu a noite pavorosa, a aurora encheu todas as taças com seu vinho e o sol estabeleceu sua presença celeste, enquanto o cruel amor sem trégua me cercava, até que lacerando-me com espadas e espinhos abriu no coração um caminho queimante."
"Per il mio cuore basta il tuo petto, per la tua libertà bastano le mie ali. Dalla mia bocca arriverà fino in cielo ciò che stava sopito sulla tua anima. E' in te l'illusione di ogni giorno. Giungi come la rugiada sulle corolle. Scavi l'orizzonte con la tua assenza. Eternamente in fuga come l'onda. Ho detto che cantavi nel vento come i pini e come gli alberi maestri delle navi. Come quelli sei alta e taciturna. E di colpo ti rattristi, come un viaggio. Accogliente come una vecchia strada. Ti popolano echi e voci nostalgiche. Io mi sono svegliato e a volte migrano e fuggono gli uccelli che dormivano nella tua anima."