"Aprendi a esperar...Se ventos são capazes de levar embora, a qualquer hora, também, são capazes de fazer voltar."
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Flora Figueiredo
Flora Figueiredo é uma poeta, cronista, compositora e tradutora brasileira, nascida em São Paulo. Além de ter publicado regularmente em várias revistas nacionais, a autora também é Vice-presidente da Associação das Jornalistas e Escritoras do Brasil. Entre as suas obras se destacam "Florescência" (1987), "Calçada de Verão" (1989) e "Amor a céu aberto" (1992).
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"Não deixe portas entreabertas. Escancare-as ou as bata de uma vez. Porque por meias entradas entram meias felicidades."
"Não deixe portas entreabertas Escancare-as Ou bata-as de vez. Pelos vãos, brechas e fendas Passam apenas semiventos, Meias verdades E muita insensatez."
"Agarre o desaponto pelo avesso, apare as pontas,corte o excesso. Mude a covardia de endereço, ponha a escavadeira em retrocesso até que o mundo,esse réu confesso, lhe devolva seu mel e seu apreço."
"Retirada Respeite o silêncio a omissão, a ausência. É meu movimento de deserção. Abandonei o posto, rompi a corda, desacreditei de tudo. Cansei de esperar que finalmente um dia, minha fotografia fizesse jus ao seu criado-mudo."
"❝ Roda mundo, roda vida, roda vento. Passa tudo, passa tanto, passa tempo. Rodopiam as cores na eterna reticência do momento. Entre uma volta e outra do destino, continuo apenas um menino a soprar meu gira-sonho como um cata-vento."
"Nó Estou perdidamente emaranhada em seus fios de delícias e doçuras. Já não encontro o começo da meada, não sei nem mesmo se há uma ponta de saída, ou se a loucura vai num ritmo crescente até subjugar a minha vida. Não importa. Quero seus nós de seda cada vez mais cegos e apertados a me costurar nas malhas e nos pêlos. Enquanto você me amarra, permanece atado na própria trama redonda do novelo"
"Borbulhante Guardei meu poema dentro de uma bolha de sabão. Como não ficar seduzida Pela circunferência lisa e transparente, Onde o arco-íris passeia docemente, E morre de amores pela espuma colorida? Acomodada na nova moradia, O poema suspirou e adormeceu. Quando acordou já não mais me pertencia. A bolha de sabão se deslocara E o poema apaixonado que eu criara Descobriu de repente que era teu."
"“Se tiver que ir, vai. O que fica para trás, não sendo mentira, não racha, não rompe, não cai.Ninguém tira. Já que vai, segue se depurando pelo trajeto, para desembarcar passado a limpo, sem máscara, sem nada, sem nenhum desafeto. Quando chegar, sobe ao ponto mais alto do lugar, onde a encosta do mundo faz a curva mais pendente. E então acena. De onde estiver, quero enxergar esse momento em que você vai constatar que a vida vale grandemente a pena.”"
"Vento novo Estava enrolada em teias e traças, debaixo da escada, lá no subsolo da casa fechada. Começava a tomar ares de desgraça. Manchada do tempo, fenecia a esperar que um dia alguma coisa acontecesse. Antes que se perdesse completamente, sentiu passar um vento cor-de-rosa. Toda prosa, espanou a bruma, pintou os lábios e sem vergonha nenhuma caprichou no recorte do decote. A felicidade volta à praça cheia de dengo e de graça, com perfume novo no cangote."
"Dor de Cotovelo. Deve ser tratada com dignidade. Não é virose, epidemia ou artrose, nem mesmo falha de envelhecimento. Independe da idade. Costuma dar a sensação de um escuro profundo, onde a luz não chega, onde a esperança é cega e nossa estima é o rodapé do mundo. Não acredite ! Como esse mal não transmite nenhum perigo fatal, poder ser prazeroso o colo de um amigo, um abraço forte, como abrigo, uma palavra doce, um cafuné. Acima de tudo, que se mantenha a fé. Muito pior do que passar por isso é sonegar emoção, evitar o risco e o compromisso, esconder-se atrás das grades da razão. Quem hoje por amor está sofrendo, Só por amar, já merece estar vivendo."
"Mais uma vez o tempo me assusta. Passa afobado pelo meu dia, atropela minha hora, despreza minha agenda. Corre prepotente, para disputar lugar com o vento. O tempo envelhece, não se emenda. Deveria haver algum decreto que obrigasse o tempo a desacelerar e a respeitar meu projeto. Só assim, eu daria conta dos livros que vão se empilhando,das melodias que estão me aguardando; Das saudades que venho sentindo, Das verdades que ando mentindo, Das promessas que venho esquecendo, Dos impulsos que sigo contendo, Dos prazeres que chegam partindo, Dos receios que partem voltando. Agora, que redijo a página final, Percebo o tanto de caminho percorrido Ao impulso da hora que vai me acelerando. Apesar do tempo, e sua pressa desleal, Agradeço a Deus por ter vivido, amanhecer e continuar teimando ..."