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"Loucura de sonho naquele silêncio alheio!... A nossa vida era toda a vida... O nosso amor era o perfume do amor. . . Vivíamos horas impossíveis, cheias de sermos nós. . . E isto porque sabíamos, com toda a carne da nossa carne, que não éramos uma realidade. . . Éramos impessoais, ocos de nós, outra coisa qualquer. . . Éramos aquela paisagem esfumada em consciência de si própria. . . E assim como ela era duas — de realidade que era, e ilusão — assim éramos nós obscuramente dois, nenhum de nós sabendo bem se o outro não era ele-próprio, se o incerto outro vivera. . . Quando emergimos de repente ante o estagnar dos lagos sentíamo- nos a querer soluçar. . . Ali aquela paisagem tinha os olhos rasos de água, olhos parados cheios de tédio inúmero de ser. . . Cheios, sim, do tédio de ser qualquer coisa, realidade ou ilusão — e esse tédio tinha a sua pátria e a sua voz na mudez e no exílio dos lagos... E nós, caminhando sempre e sem o saber ou querer, parecia ainda assim que nos demorávamos à beira daqueles lagos, tanto de nós com eles ficava e morava, simbolizado e absorto. . ."

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