"Ainda Não é o Fim Escondo o medo e avanço. Devagar. Ainda não é o fim. É bom andar, mesmo de pernas bambas. Entre os álamos, no vento anoitecido, ouço de novo (com os mesmos ouvidos que escutaram “Mata aqui mesmo?”) um riso de menina. Estou quase canção, não vou morrer agora, de mim mesmo, mal livrado de recente e total morte de fogo. A vida me reclama: a moça nua me chama da janela, e nunca mais e lembrarei sequer dos olhos dela. Posso seguir andando como um homem entre rosas e pombos e cabelos que em prazo certo me devolverão ao sonho que me queima o coração. Muito perdi, mas amo o que sobrou. Alguma dor, pungindo cristalina, alguma estrela, um rosto de campina. Com o que sobrou, avanço, devagar. Se avançar é saber, lâmina ardendo na flor do cerebelo, porque foi que a alegria, a alegria começando a se abrir, de repente teve fim. Mas que avançar no chão ferido seja também saber o que fazer de mim."
Temas Relacionados
Mais de Thiago de Mello
Ver todas"Velho pássaro, este mundo dorme como um menino e se renova cada manhã."
"Haverá girassóis em todas as janelas."
"A Fruta Aberta Agora sei quem sou. Sou pouco, mas sei muito, porque sei o poder imenso que morava comigo, mas adormecido como um peixe grande no fundo escuro e silencioso do rio e que hoje é como uma árvore plantada bem alta no meio da minha vida. Agora sei as coisa como são. Sei porque a água escorre meiga e porque acalanto é o seu ruído na noite estrelada que se deita no chão da nova casa. Agora sei as coisas poderosas que valem dentro de um homem. Aprendi contigo, amada. Aprendi com a tua beleza, com a macia beleza de tuas mãos, teus longos dedos de pétalas de prata, a ternura oceânica do teu olhar, verde de todas as cores e sem nenhum horizonte; com tua pele fresca e enluarada, a tua infância permanente, tua sabedoria fabulária brilhando distraída no teu rosto. Grandes coisas simples aprendi contigo, com o teu parentesco com os mitos mais terrestres, com as espigas douradas no vento, com as chuvas de verão e com as linhas da minha mão. Contigo aprendi que o amor reparte mas sobretudo acrescenta, e a cada instante mais aprendo com o teu jeito de andar pela cidade como se caminhasses de mãos dadas com o ar, com o teu gosto de erva molhada, com a luz dos teus dentes, tuas delicadezas secretas, a alegria do teu amor maravilhado, e com a tua voz radiosa que sai da tua boca inesperada como um arco-íris partindo ao meio e unindo os extremos da vida, e mostrando a verdade como uma fruta aberta. (Sobrevoando a Cordilheira dos Andes, 1962)"
Autores Populares
Em busca de mais sabedoria?



