"Místico O ar está cheio de murmúrios misteriosos E na névoa clara das coisas há um vago sentido de espiritualização… Tudo está cheio de ruídos sonolentos Que vêm do céu, que vêm do chão E que esmagam o infinito do meu desespero. Através do tenuíssimo de névoa que o céu cobre Eu sinto a luz desesperadamente Bater no fosco da bruma que a suspende. As grandes nuvens brancas e paradas – Suspensas e paradas Como aves solícitas de luz – Ritmam interiormente o movimento da luz: Dão ao lago do céu A beleza plácida dos grandes blocos de gelo. No olhar aberto que eu ponho nas coisas do alto Há todo um amor à divindade. No coração aberto que eu tenho para as coisas do alto Há todo um amor ao mundo. No espírito que eu tenho embebido das coisas do alto Há toda uma compreensão. Almas que povoais o caminho de luz Que, longas, passeais nas noites lindas Que andais suspensas a caminhar no sentido da luz O que buscais, almas irmãs da minha? Por que vos arrastais dentro da noite murmurosa Com os vossos braços longos em atitude de êxtase? Vedes alguma coisa Que esta luz que me ofusca esconde à minha visão? Sentis alguma coisa Que eu não sinta talvez? Por que as vossas mãos de nuvem e névoa Se espalmam na suprema adoração? É o castigo, talvez? Eu já de há muito tempo vos espio Na vossa estranha caminhada. Como quisera estar entre o vosso cortejo Para viver entre vós a minha vida humana... Talvez, unido a vós, solto por entre vós Eu pudesse quebrar os grilhões que vos prendem... Sou bem melhor que vós, almas acorrentadas Porque eu também estou acorrentado E nem vos passa, talvez, a idéia do auxílio. Eu estou acorrentado à noite murmurosa E não me libertais... Sou bem melhor que vós, almas cheias de humildade. Solta ao mundo, a minha alma jamais irá viver convosco. Eu sei que ela já tem o seu lugar Bem junto ao trono da divindade Para a verdadeira adoração. Tem o lugar dos escolhidos Dos que sofreram, dos que viveram e dos que compreenderam."
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Ver todas"Foi então Que da minha infinita tristeza Aconteceu você Encontrei em você a razão de viver E de amar em paz E não sofrer mais Nunca mais Porque o amor é a coisa mais triste Quando se desfaz"
"Subamos! Subamos acima Subamos além, subamos Acima do além, subamos! Com a posse fisica dos braços Inelutavelmente galgaremos O grande mar de estrelas Através de milênios de luz. Subamos! Como dois atletas O rosto petrificado No pálido sorriso do esforço Subamos acima Com a posse física dos braços E os músculos desmesurados Na calma convulsa da ascensão. Oh, acima Mais longe que tudo Além, mais longe que acima do além! Como dois acrobatas Subamos, lentíssimos Lá onde o infinito De tão infinito Nem mais nome tem Subamos! Tensos Pela corda luminosa Que pende invisível E cujos nós são astros Queimando nas mãos Subamos à tona Do grande mar de estrelas Onde dorme a noite Subamos! Tu e eu, herméticos As nádegas duras A carótida nodosa Na fibra do pescoço Os pés agudos em ponta. Como no espasmo. E quando Lá, acima Além, mais longe que acima do além Adiante do véu de Betelgeuse Depois do país de Altair Sobre o cérebro de Deus Num último impulso Libertados do espírito Despojados da carne Nós nos possuiremos. E morreremos Morreremos alto, imensamente IMENSAMENTE ALTO"
"Seja Feliz Foi, fico como todo amor se vai Sem nem dizer aonde vai foi e eu fiquei sem ninguém À espera do que não vem Que melancolia Foi, foi só porque eu nada fiz Como um adeus que nem se deu pois seja muito feliz Infeliz já sou eu Pra sofrer sofro eu."
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