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"Dia Inteiro Pense num dia em que seu rosto já acalenta o cansaço semanal, que os bocejos são contínuos, que a palavra faxina é capaz de abalar a sua psique. Pensou na segunda-feira? Errou. Meu dia de ócio é o domingo. Vontade de fazer nada, dia de contemplar o teto. Não tem praia, festa em família e nem balada que me tire do ninho. Me convide às sextas. Barzinho, cinema, música. Emendaremos os sábados. Mas olha, domingo, não. Sabe aquele dia em que a sua maior vontade é de usar pijama o dia inteiro e esquecer de que tem cabelos para pentear? Pois então, bem vindos ao meu dia de domingo. Perco toda a vaidade. Inútil também arrumar a cama. Lá acordarei e regressarei por diversas vezes ao dia. Quase me transfiguro em sessão das grandes lojas: cama, mesa e banho. Aos domingos sou metade. Uma metade inteira de preguiça. Gosto de cozinhar mas preferirei comida pronta. Atualizarei minhas leituras, me entupirei de telecine. Nada de ponte Rio- Niterói, nada de trânsito, relatório, telefonemas, clientes. Muito mais que descansar da correria da semana. Preparar-se pra mais uma. Após tanta moleza, guardo energia pro desfecho. O único esforço é o do final do dia, vencer a batalha de posse do controle remoto: “Fantástico versus Pânico na tv”. Agrego minha cunhada como aliada pelas notícias. Meu irmão e namorado ficam no time oposto, prefiro acreditar que só pra nos contrariar. A disputa é acirrada, cheia de argumentações. E mesmo de meias, mesmo descabeladas, vencemos. Benditas sejam a inteligência e a articulação feminina. Forças renovadas para a nova semana."

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"Soube que te amava, não quando te quis pra toda vida mas quando te queria em todos os meus finais de dia. Pra te ouvir mesmo cansada, pra te esperar acordada, pra ter e receber o colo que só a gente sabia se dar. Refletir o presente, ser encaixe perfeito, repouso e divã. Soube que te amava por de repente me ver carregar suas dores e tornar meus os seus conflitos sem ao menos sentir o peso deles. Percebi que era amor pelo jeito que você me fazia rir. Não das suas piadas mal contadas, mas da sua forma de ver a vida, serena e traduzível."

"Apaixonado é mesmo urgente, exigente, isento de razão. Um ser recém contemplado pela inspiração. Com toda a simplicidade e fé de quem aposta em fazer o sentimento crescer, inventará que o pra sempre é pouco. Decretará nova opção. Inventará de amar pra sempre e mais um fim de semana."

"O moço do metrô Era pra ser só mais um dia comum. Despertador estridente e banho frio como método de tortura e adeus ao sono às cinco horas da manhã. Paciência e agilidade matinal - dualidade duvidosa - pra domar a jubinha de leão, deixar pra depois o café que eu não tomo e enfrentar aquele trânsito caótico da cidade maravilhosa rumo às aulas de inglês. O fato é que o sono não é tão invencível, a cidade não é tão maravilhosa às seis horas da manhã e após enfrentar o trânsito nosso de cada dia, que parecia duas vezes pior, desisti da aula já que pelo horário, só chegaria a tempo de ouvir o "bye, bye...see you on friday!" Aproveitei o tempo para resolver outras pendências. Mudei de rota e dessa vez fui de metrô. Até que não estava tão cheio, tinha espaço suficiente para entrar com calma e poder virar o pescoço observando a calmaria comum e tediosa que habitava o local. Habitava, até que, para surpresa geral, chega um cidadão carioca, rompendo o silêncio dominante, cantando a música "fora da lei" em volume e tons propagáveis para todo o vagão. O cidadão comum que acordou se achando o Ed Motta, atraiu a atenção e o estranhamento de todos ali presentes. A senhora com cara de "tô brava", lançava olhares de fúria, decerto achou um disparate a coragem e suposta má educação do rapaz. O engravatado olhou com cara de reprovação, repassando bravamente as folhas de seu jornal. O nerd afundou ainda mais a cara em seu livro de "alguma coisa chata demais" certamente sentindo vergonha pelo rapaz que, não só cantava, mas insistia nos "paradibirudubuaê" típicos do Ed. E eu? Eu só conseguia rir. Rir dos "paradibirudubuaê", rir da naturalidade em que o rapaz levava aquela situação e principalmente da reação ao redor. Me recordei de um episódio do programa "De cara limpa" em que o ator-humorista-músico-autor e corajoso Fernando Caruso entra no metrô vestido de mulher e dança na barra de aço, realizando uma inusitada e divertida performance de pole dance para surpresa, estranhamento e simultaneamente risada geral. Trata-se de um programa que visa desmistificar as regras do marasmo, levando humor e descontração a locais públicos onde a tensão ou o tédio imperam, assim, na cara dura, ou conforme o nome, de cara limpa. O que é sensacional, eficaz, positivo e porquê não, construtivo em tempos de estresse coletivo e certeiro. Em tempos de correria e agitação trivial, desatenção aos detalhes cotidianos, ao que é essencial. Um momento pra sorrir, um momento pra romper com as barreiras invisíveis do silêncio, doa a quem doer, custe os olhares insatisfeitos que custarem. Momento pra respirar leveza, diminuir o ritmo. Despir as vestes da formalidade, dos bons modos, ser quem se é quando ninguém está vendo, mas quando todos estão vendo. Coragem? Sim, e autenticidade. Me remete a uma citação de um dos meus escritores preferidos. Luis Fernando Veríssimo disse "Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, é a que não tem medo do ridículo". Eu concordo. E o moço do metrô também."

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