"A TORRE SEM DEGRAUS No térreo se arrastam possuidores de ciosas recoisificadas. No 1.° andar vivem depositários de pequenas convicções, mirando-as, remirando-as com lentes de contato. No 2.° andar vivem negadores de pequenas convicções, pequeninos eles mesmos. No 3.° andar - tlás tlás - a noite cria morcegos. No 4.°, no 7.°, vivem amorosos sem amor, desamorando. No 5.°, alguém semeou de pregos dentes de feras vacos de espelho a pista encerada para o baile de debutantes de 1848. No 6.°, rumina-se política na certeza-esperança de que a ordem precisa mudar deve mudar há de mudar, contanto que não se mova um alfinete para isso. No 8.°, ao abandono, 255 cartas registradas não abertas selam o mistério da expedição dizimada por índios Anfika. No 9.°, cochilam filósofos observados por apoftegmas que não chegam a conclusão plausível. Mo 10.°, o rei instala seu gabinete secreto e esconde a coroa de crisógrasos na terrina. No 11.°, moram (namoram?) virgens contidas em cinto de castidades. No 12.°, o aquário de peixes fosforecentes ilumina do teto a poltrona de um cego de nascença. Atenção, 13.°. Do 24.° baixará às 23h um pelotão para ocupar-te e flitar a bomba suja, de que te dizes depositário. No 15.°, o último leitor de Dante, o último de Cervantes, o último de Musil, o último do Diário Oficial dizem adeus à palavra impressa. No 16.°, agricultores protestam contra a fusão de sementes que faz nascerem cereais invertidos e o milho produzir crianças. No 17.°, preparam-se orações de sapiência, tratados internacionais, bulas de antibióticos. Não se sabe o que aconteceu ao 18.°, suprimido da Torre. No 19.° profetas do Antigo Testamento conferem profecias no computador analógico. No 20.°, Cacex Otan Emfa Joc Juc Fronap FBI Usaid Cafesp Alalc Eximbanc trocam de letras, viram Xfp, Jjs, IxxU e que sei mais. Mo 22;°, banqueiros incineram duplicatas vencidas, e das cinzas nascem novas duplicatas. NO 23.°, celebra-se o rito do boi manso, que de tão manso ganhou biograifa e auréola. No 24.°, vide 13.°. No 25.°, que fazes tu, morcego do 3.°? que fazes tu, miss adormecida na passarela? No 26.°., nossas sombras despregadas dos corpos passseiam devagar, cumprimentando-se. O 27.° é uma clínica de nervosos dirigida por general-médico reformado, e em que aos sábados todos se curam para adoecer de novo na segunda-feira. Do 28.° saem boatos de revolução e cruzam com outros de contra-revolução. Impróprio a qualquer uso que não seja o prazer, o 29.° foi declarado inabitável. Excesso de lotação no 30.°: moradores só podem usar um olho, uma perna, meias palavras. No 31.°, a Lei afia seu arsenal de espadas inofensivas, e magistrados cobrem-se com cinzas de ovelhas sacrificadas. No 32.°, a Guerra dos 100 Anos continua objeto de análise acuradíssima. No 33.°, um homem pede pra ser crucificado e não lhe prestam atenção. No 34.°, um ladrão sem ter o que roubar rouba o seu próprio relógio. No 35.°, queixam-se da monotonia deste poema e esquecem-se da monotonia da Torre e das queixas. Um mosquito é, no 36.°, único sobrevivente do que foi outrora residência movimentada com jantares óperas pavões. No 37.°, a canção Filorela amarlina lousileno i flanura meleglírio omoldana plunigiário olanin. No 38.°, o parlamento sem voz, admitido por todos os regimes, exercita-se na mímica de orações. No 39.°, a celebração ecumênica dos anjos da luz e dos anjos da treva, sob a presidência de um meirinho surdo. No 40.°, só há uma porta uma porta uma porta. Que se abre para o 41.°, deixando passar esqueletos algemados e coduzidos por fiscais do Imposto de Consciência. No 42.°, goteiras formam um lago onde bóiam ninféias, e ninfetas executam bailados quentes. No 43.°, no 44.°, no... continua indefinidamente)."
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Ver todas"A minha vontade é forte, porém minha disposição de obedecer-lhe é fraca."
"Também já fui brasileiro Eu também já fui brasileiro moreno como vocês. Ponteei viola, guiei forde e aprendi na mesa dos bares que o nacionalismo é uma virtude. Mas há uma hora em que os bares se fecham e todas as virtudes se negam. Eu também já fui poeta. Bastava olhar para mulher, pensava logo nas estrelas e outros substantivos celestes. Mas eram tantas, o céu tamanho, minha poesia perturbou-se. Eu também já tive meu ritmo. Fazia isso, dizia aquilo. E meus amigos me queriam, meus inimigos me odiavam. Eu irônico deslizava satisfeito de ter meu ritmo. Mas acabei confundindo tudo. Hoje não deslizo mais não, não sou irônico mais não, não tenho ritmo mais não."
"A educação para o sofrimento evitaria senti-lo com relação a casos que não o merecem."
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