"JANEIRO Enquanto esperava por ela Passavam crianças empinando pipas Homens comentando política Mulheres falando de moda Cachorros latindo Mendigos pedindo esmola Padres rezando Putas vendendo o corpo Promessas vendendo a alma. Enquanto esperava por ela Crianças viravam adultos Homens se desiludiam Mulheres dormiam maltrapilhas Cães adoeciam Mendigos morriam de fome Padres se perdiam de Deus Putas apodreciam Promessas entregavam a alma ao demônio. Enquanto esperava por ela Adultos envelheciam Homens morriam Mulheres também morriam Cães nem mais existiam Mendigos jaziam em covas rasas Padres renegavam a fé Putas se suicidavam O demônio sorria. Um dia, enfim, ela resolveu vir. Bateu a porta, mas a porta se calou. Chamou meu nome e o silêncio se fez saber. Adentrou a casa tateando o escuro e o escuro não me deu a ela. Procurou minha cama e a encontrou arrumada. Vasculhou cômodo por cômodo e, diante da inexorável ausência, atordoada, sentou-se na poltrona empoeirada e, enquanto revivia lembranças, eu vagava por onde me fora dado não ser: agora fazia parte do cosmo."
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Ver todas"ENTREPOSTO Num monólogo louco tento saber teus passos. Onde estás? em casa? pelas ruas? Que roupas vestes? O que calças? Se é que calças. Brincas e sorris ou te perdes o olhar no nada? Pensas em mim ou no etéreo mundo que nos serve de entreposto? Se nada mais nos acompanha e de nada vale esperar, que me falte a vida e que seja a última parada, o entreposto."
"Contraste No interior da casa, em meio as paredes quebradas e chão empoeirado, ainda paira a tua presença. Teus passos estão nos corredores e a cama que já não tem mais guarda o relevo do teu corpo. Quiçá cacos de copos quebrados esparramados no chão ainda tragam o batom dos teus lábios. Talvez ecoem pelos quartos tuas últimas palavras. Lá dentro, parece que o tempo parou. Lá fora, a vida continua indiferente. E, num contraste louco, tua imagem permanece num ausência constante na janela que parou o tempo de dentro."
"OINICSAF Não me incomoda se teus pés pisam areia e que salgas tua boca com água do mar. Não me peças que fale de vida nem de vai e vem de ondas. Não me interessam as conchas que não vou ganhar, nem que te fascines com o mar. Não me incomoda nada ser e nem ter um sorriso de ontem nos lábios. Me incomoda saber-me não mais teu cais."
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