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"JANEIRO Enquanto esperava por ela Passavam crianças empinando pipas Homens comentando política Mulheres falando de moda Cachorros latindo Mendigos pedindo esmola Padres rezando Putas vendendo o corpo Promessas vendendo a alma. Enquanto esperava por ela Crianças viravam adultos Homens se desiludiam Mulheres dormiam maltrapilhas Cães adoeciam Mendigos morriam de fome Padres se perdiam de Deus Putas apodreciam Promessas entregavam a alma ao demônio. Enquanto esperava por ela Adultos envelheciam Homens morriam Mulheres também morriam Cães nem mais existiam Mendigos jaziam em covas rasas Padres renegavam a fé Putas se suicidavam O demônio sorria. Um dia, enfim, ela resolveu vir. Bateu a porta, mas a porta se calou. Chamou meu nome e o silêncio se fez saber. Adentrou a casa tateando o escuro e o escuro não me deu a ela. Procurou minha cama e a encontrou arrumada. Vasculhou cômodo por cômodo e, diante da inexorável ausência, atordoada, sentou-se na poltrona empoeirada e, enquanto revivia lembranças, eu vagava por onde me fora dado não ser: agora fazia parte do cosmo."

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