"As horas No alvorecer da vida, pouco me importavam as horas. Afinal, elas eram longas, tinha muito tempo ainda. Elas eram aliadas. Depois, elas ficaram mais rápidas. Os ponteiros se mexiam quase ao mesmo tempo, na velocidade dos segundos. Disputávamos! Quando dei por mim, fazia tudo enquanto observava o relógio. Comecei a respeitá-la; afinal ela seguia em minha direção. Hoje percebo que não há como vencê-la. Tampouco como enfrenta-la. Enquanto me perdia tentando pará-la, as horas foram passando. Perdi muito tempo, enquanto observava os ponteiros..."
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Ver todas"Quem sou? Sou dia ou noite? Sou choro sem riso. Uma dor, sem êxtase. Do começo sem fim. Só há um fim? É assim desde o começo! Sou só. Eu sou."
"Servidão Numa época de senhores e escravos, certa feita, um causo se sucedeu. Um dos escravos, o mais velho e obediente que já houvera por aquelas bandas, teve seu único filho envolvido numa pendenga. A sinhazinha, moça de poucos atributos e coração de pedra, vira o menino comendo uma fruta. Coisa boba, pedaço de sobra da refeição anterior, mais que ele tivera a ousadia de pegar. Antes os porcos do que os serviçais da casa. Caso passado ao sinhozinho, o menino fora chamado a responsabilidade: iria pagar com seu lombo franzino e a carne magra, os desaforos do arroubo. Assim fora marcado: o menino ia apanhar do capataz da fazenda no alvorecer do dia, para que diante de toda a negrada ficasse bem claro: só poderiam comer do angú que lhes fossem servidos. O pai do negrinho, vendo que o capataz não ia tremer a mão na hora do castigo, tomou de força e pediu: - Sinhô, sei que meu filho errou, sei que vosmecê tem filho também, e coisa que aprendi morando aqui como vosso servo, é que pai educa filho. Deixa eu educar o meu também. Permita que eu dê a coça, mode ele aprende a não pegar nada que não seja dado. E assim foi. O pai bateu até que o sinhô desse a ordem de parar, que foi quando o menino desmaiou. Menino franzino, 10 ou 12 anos, tanto fazia. Se fosse pela mão do capataz, duas e teria tombado morto. Na madrugada, Quando o choro miúdo do menino se fazia grande na senzala, ouviu-se um sussurro: pai, por quê você me bateu? Bem sabe que eu só tinha fome, e as sobras iam para os porcos... O pai entre lágrimas respondeu: bati porque eu sabia onde podia bater sem te matar. Cada chicotada que dei, tua pele eu parti, mas meu coração eu sangrei!"
"Humana Idade Hoje minha certidão de nascimento avisa: 50 anos. Sinto meu coração gelado e o sangue não percorre mais meu corpo, as narinas só percebem um cheiro: o do bolor! Penso sobre o que restou de humanidade, humanitário, humano...serão apenas palavras em um dicionário? Cadê meu irmão de coração caridoso, de sangue pulsante e crédulo na humanidade para me resgatar? Quantas Madalenas estarão espalhadas entre nós? Quantas pedras atiramos? Palavras que abrem chagas com o desprezo e o desdém. Como toda frieza arrogante, nem ao menos percebemos que há muito tempo já estamos sós! Eis que aqui estou de coração frio (cheirando à mofo), sentindo apenas o que restou aos homens: a solidão!"
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