"A uma mulher Quando a madrugada entrou eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito Estavas trêmula e teu rosto pálido e tuas mãos frias E a angústia do regresso morava já nos teus olhos. Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino Quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne Quis beijar-te num vago carinho agradecido. Mas quando meus lábios tocaram teus lábios Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo E que era preciso fugir para não perder o único instante Em que foste realmente a ausência de sofrimento Em que realmente foste a serenidade. Rio de Janeiro, 1933"
Temas Relacionados
Mais de Vinicius de Moraes
Ver todas"Nada renasce antes que se acabe. E o sol que desponta tem que anoitecer."
"Ternura Eu te peço perdão por te amar de repente Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos Das horas que passei à sombra dos teus gestos Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos Das noites que vivi acalentado Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente. E posso te dizer que o grande afeto que te deixo Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas Nem as misteriosas palavras dos véus da alma... É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias E só te pede que te repouses quieta, muito quieta E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar estático da aurora."
"Vazio A noite é como um olhar longo e claro de mulher. Sinto-me só. Em todas as coisas que me rodeiam Há um desconhecimento completo da minha infelicidade. A noite alta me espia pela janela E eu, desamparado de tudo, desamparado de mim próprio Olho as coisas em torno Com um desconhecimento completo das coisas que me rodeiam. Vago em mim mesmo, sozinho, perdido Tudo é deserto, minha alma é vazia E tem o silêncio grave dos templos abandonados. Eu espio a noite pela janela Ela tem a quietação maravilhosa do êxtase. Mas os gatos embaixo me acordam gritando luxúrias E eu penso que amanhã... Mas a gata vê na rua um gato preto e grande E foge do gato cinzento. Eu espio a noite maravilhosa Estranha como um olhar de carne. Vejo na grade o gato cinzento olhando os amores da gata e do gato preto Perco-me por momentos em antigas aventuras E volto à alma vazia e silenciosa que não acorda mais Nem à noite clara e longa como um olhar de mulher Nem aos gritos luxuriosos dos gatos se amando na rua. Rio de Janeiro, 1933"
Autores Populares
Em busca de mais sabedoria?



