"Assim, desajeitados, Carinho ocasional Sem projeto final Nem sonhos à distância Sem sombra ao sol, Também sem ânsia, Soneto (a meu modo e maneira) Apenas companheiros de estrada Ruas, valas, alguns quintais, Dias, noites, noites e dias, Sol e chuva ocasionais Vamos. Onde as paralelas se encontram, Lá, Nos separamos."
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Mais de Millôr Fernandes
Ver todas"O tempo não existe, só existe o passar do tempo."
"Poesia exploratória a você Quem alisa meus cabelos? Quem me tira o paletó? Quem, à noite, antes do sono, acarinha meu corpo cansado? Quem cuida da minha roupa? Quem me vê sempre nos sonhos? Quem pensa que sou o rei desta pobre criação? Quem nunca se aborrece de ouvir minha voz? Quem paga meu cinema, seja de dia ou de noite? Quem calça meus sapatos e acha meus pés tão lindos? Eu mesmo."
"Poesia Matemática Às folhas tantas do livro matemático um Quociente apaixonou-se um dia doidamente por uma Incógnita. Olhou-a com seu olhar inumerável e viu-a do ápice à base uma figura ímpar; olhos rombóides, boca trapezóide, corpo retangular, seios esferóides. Fez de sua uma vida paralela à dela até que se encontraram no infinito. "Quem és tu?", indagou ele em ânsia radical. "Sou a soma do quadrado dos catetos. Mas pode me chamar de Hipotenusa." E de falarem descobriram que eram (o que em aritmética corresponde a almas irmãs) primos entre si. E assim se amaram ao quadrado da velocidade da luz numa sexta potenciação traçando ao sabor do momento e da paixão retas, curvas, círculos e linhas sinoidais nos jardins da quarta dimensão. Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana e os exegetas do Universo Finito. Romperam convenções newtonianas e pitagóricas. E enfim resolveram se casar constituir um lar, mais que um lar, um perpendicular. Convidaram para padrinhos o Poliedro e a Bissetriz. E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro sonhando com uma felicidade integral e diferencial. E se casaram e tiveram uma secante e três cones muito engraçadinhos. E foram felizes até aquele dia em que tudo vira afinal monotonia. Foi então que surgiu O Máximo Divisor Comum freqüentador de círculos concêntricos, viciosos. Ofereceu-lhe, a ela, uma grandeza absoluta e reduziu-a a um denominador comum. Ele, Quociente, percebeu que com ela não formava mais um todo, uma unidade. Era o triângulo, tanto chamado amoroso. Desse problema ela era uma fração, a mais ordinária. Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade e tudo que era espúrio passou a ser moralidade como aliás em qualquer sociedade."
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