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"Minha Mãe Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo Tenho medo da vida, minha mãe. Canta a doce cantiga que cantavas Quando eu corria doido ao teu regaço Com medo dos fantasmas do telhado. Nina o meu sono cheio de inquietude Batendo de levinho no meu braço Que estou com muito medo, minha mãe. Repousa a luz amiga dos teus olhos Nos meus olhos sem luz e sem repouso Dize à dor que me espera eternamente Para ir embora. Expulsa a angústia imensa Do meu ser que não quer e que não pode Dá-me um beijo na fronte dolorida Que ela arde de febre, minha mãe. Aninha-me em teu colo como outrora Dize-me bem baixo assim: - Filho, não temas Dorme em sossego, que tua mãe não dorme. Dorme. Os que de há muito te esperavam Cansados já se foram para longe. Perto de ti está tua mãezinha Teu irmão, que o estudo adormeceu Tuas irmãs pisando de levinho Para não despertar o sono teu. Dorme, meu filho, dorme no meu peito Sonha a felicidade. Velo eu. Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo Me apavora a renúncia. Dize que eu fique Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade. Afugenta este espaço que me prende Afugenta o infinito que me chama Que eu estou com muito medo, minha mãe."

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"A Hora Íntima Quem pagará o enterro e as flores Se eu me morrer de amores? Quem, dentre amigos, tão amigo Para estar no caixão comigo? Quem, em meio ao funeral Dirá de mim: — Nunca fez mal... Quem, bêbado, chorará em voz alta De não me ter trazido nada? Quem virá despetalar pétalas No meu túmulo de poeta? Quem jogará timidamente Na terra um grão de semente? Quem elevará o olhar covarde Até a estrela da tarde? Quem me dirá palavras mágicas Capazes de empalidecer o mármore? Quem, oculta em véus escuros Se crucificará nos muros? Quem, macerada de desgosto Sorrirá: — Rei morto, rei posto... Quantas, debruçadas sobre o báratro Sentirão as dores do parto? Qual a que, branca de receio Tocará o botão do seio? Quem, louca, se jogará de bruços A soluçar tantos soluços Que há de despertar receios? Quantos, os maxilares contraídos O sangue a pulsar nas cicatrizes Dirão: — Foi um doido amigo... Quem, criança, olhando a terra Ao ver movimentar-se um verme Observará um ar de critério? Quem, em circunstância oficial Há de propor meu pedestal? Quais os que, vindos da montanha Terão circunspecção tamanha Que eu hei de rir branco de cal? Qual a que, o rosto sulcado de vento Lançara um punhado de sal Na minha cova de cimento? Quem cantará canções de amigo No dia do meu funeral? Qual a que não estará presente Por motivo circunstancial? Quem cravará no seio duro Uma lâmina enferrujada? Quem, em seu verbo inconsútil Há de orar: — Deus o tenha em sua guarda. Qual o amigo que a sós consigo Pensará: — Não há de ser nada... Quem será a estranha figura A um tronco de árvore encostada Com um olhar frio e um ar de dúvida? Quem se abraçará comigo Que terá de ser arrancada? Quem vai pagar o enterro e as flores Se eu me morrer de amores?"

"Como uma jovem rosa, a minha amada... Morena, linda, esgalga, penumbrosa Parece a flor colhida, ainda orvalhada Justo no instante de tornar-se rosa. Ah, porque não a deixas intocada Poeta, tu que es pai, na misteriosa Fragrância do seu ser, feito de cada Coisa tão frágil que perfaz a rosa... Mas (diz-me a Voz) por que deixá-la em haste Agora que ela é rosa comovida De ser na tua vida o que buscaste Tão dolorosamente pela vida ? Ela é rosa, poeta... assim se chama... Sente bem seu perfume... Ela te ama..."

"Que o amor seja eterno enquanto dure."

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