"A experiência é um automóvel com os faróis voltados para trás."
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"Quando morto estiver meu corpo, evitem os inúteis disfarces, os disfarces com que os vivos procuram apagar no morto o grande castigo da morte. Não quero caixão de verniz nem ramalhetes distintos, superfinos candelabros e nem as discretas decorações. Quero a morte com mau gosto! Dêem-me coroas de pano, flores de roxo pano, angustiosas flores de pano, enormes coroas maciças como salva-vidas, com fitas negras pendentes. E descubram bem a minha cara. Que vejam bem os amigos a incerteza, o pavor, o pasmo. E cada um leve bem nítida a idéia da própria morte. Descubram bem minhas mãos! Meus amigos, olhem as mãos! Onde andaram, o que fizeram, em que sexos demoraram seus dedos sabidos? Meus amigos, olhem as mãos que mentiram a vossas mãos! Foram esboçados nelas todos os gestos malditos: até os furtos fracassados e os interrompidos assassinatos. Mãos que fugiram da suprema purificação dos possíveis suicídios. Descubram e exibam todo meu corpo, as partes excomungadas, as partes sujas sem perdão. Eu quero a morte nua e crua, terrífica e habitual. Quero ser um tal defunto, um morto tão acabado, tão aflitivo e pungente, que possam ver, os meus amigos, que morre-se do mesmo jeito como se vão os penetras escorraçados, as prostitutas recusadas, os amantes despedidos, que saem enxotados mas voltariam sem brio a qualquer gesto de chamada. Meus amigos, tenham pena – senão do morto – aos menos dos dois sapatos do morto. Olhem bem para eles. E para os vossos também!"
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