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"A uma mulher Quando a madrugada entrou eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito Estavas trêmula e teu rosto pálido e tuas mãos frias E a angústia do regresso morava já nos teus olhos. Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino Quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne Quis beijar-te num vago carinho agradecido. Mas quando meus lábios tocaram teus lábios Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo E que era preciso fugir para não perder o único instante Em que foste realmente a ausência de sofrimento Em que realmente foste a serenidade. Rio de Janeiro, 1933"

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"Invocação à mulher única Tu, pássaro – mulher de leite! Tu que carregas as lívidas glândulas do amor acima do sexo infinito Tu, que perpetuas o desespero humano – alma desolada da noite sobre o frio das águas – tu Tédio escuro, mal da vida – fonte! jamais... jamais... (que o poema receba as minhas lágrimas!...) Dei-te um mistério: um ídolo, uma catedral, uma prece são menos reais que três partes sangrentas do meu coração em martírio E hoje meu corpo nu estilhaça os espelhos e o mal está em mim e a minha carne é aguda E eu trago crucificadas mil mulheres cuja santidade dependeria apenas de um gesto teu sobre o espaço em harmonia. Pobre eu! sinto-me tão tu mesma, meu belo cisne, minha bela, bela garça, fêmea Feita de diamantes e cuja postura lembra um templo adormecido numa velha madrugada de lua... A minha ascendência de heróis: assassinos, ladrões, estupradores, onanistas – negações do bem: o Antigo Testamento! – a minha descendência De poetas: puros, selvagens, líricos, inocentes: O Novo Testamento afirmações do bem: dúvida (Dúvida mais fácil que a fé, mais transigente que a esperança, mais oporturna que a caridade Dúvida, madrasta do gênio) – tudo, tudo se esboroa ante a visão do teu ventre púbere, alma do Pai, coração do Filho, carne do Santo Espírito, amém! Tu, criança! cujo olhar faz crescer os brotos dos sulcos da terra – perpetuação do êxtase Criatura, mais que nenhuma outra, porque nasceste fecundada pelos astros – mulher! tu que deitas o teu sangue Quando os lobos uivam e as sereias desacordadas se amontoam pelas praias – mulher! Mulher que eu amo, criança que amo, ser ignorado, essência perdida num ar de inverno. Não me deixes morrer!... eu, homem – fruto da terra – eu, homem – fruto da carne Eu que carrego o peso da tara e me rejubilo, eu que carrego os sinos do sêmen que se rejubilam à carne Eu que sou um grito perdido no primeiro vazio à procura de um Deus que é o vazio ele mesmo! Não me deixes partir... – as viagens remontam à vida!... e por que eu partiria se és a vida, se há em ti a viagem muito pura A viagem do amor que não volta, a que me faz sonhar do mais fundo da minha poesia Com uma grande extensão de corpo e alma – uma montanha imensa e desdobrada – por onde eu iria caminhando Até o âmago e iria e beberia da fonte mais doce e me enlanguesceria e dormiria eternamente como uma múmia egípcia No invólucro da Natureza que és tu mesma, coberto da tua pele que é a minha própria – oh mulher, espécie adorável da poesia eterna! Rio de Janeiro, 1938 in Novos Poemas in Antologia Poética in Poesia completa e prosa: "A saudade do cotidiano""

"Monólogo de Orfeu Mulher mais adorada! Agora que não estás, deixa que rompa O meu peito em soluços! Te enrustiste em minha vida, e cada hora que passa É mais por que te amar a hora derrama o seu óleo de amor em mim, amada. E sabes de uma coisa? Cada vez que o sofrimento vem, essa vontade de estar perto, se longe ou estar mais perto se perto Que é que eu sei? Este sentir-se fraco, o peito extravasado o mel correndo, essa incapacidade de me sentir mais eu, Orfeu; Tudo isso que é bem capaz de confundir o espírito de um homem. Nada disso tem importância Quando tu chegas com essa charla antiga, esse contentamento, esse corpo E me dizes essas coisas que me dão essa força, esse orgulho de rei. Ah, minha Eurídice Meu verso, meu silêncio, minha música. Nunca fujas de mim. Sem ti, sou nada. Sou coisa sem razão, jogada, sou pedra rolada. Orfeu menos Eurídice: coisa incompreensível! A existência sem ti é como olhar para um relógio Só com o ponteiro dos minutos. Tu és a hora, és o que dá sentido E direção ao tempo, minha amiga mais querida! Qual mãe, qual pai, qual nada! A beleza da vida és tu, amada Milhões amada! Ah! Criatura! Quem poderia pensar que Orfeu, Orfeu cujo violão é a vida da cidade E cuja fala, como o vento à flor Despetala as mulheres - que ele, Orfeu, Ficasse assim rendido aos teus encantos? Mulata, pele escura, dente branco Vai teu caminho que eu vou te seguindo no pensamento e aqui me deixo rente quando voltares, pela lua cheia Para os braços sem fim do teu amigo Vai tua vida, pássaro contente Vai tua vida que estarei contigo!"

"Resta esse constante esforço Para caminhar dentro do LABIRINTO Esse eterno levantar-se depois De cada queda, Essa busca de equilíbrio no fio Da navalha, Essa terrível coragem diante do Grande medo, E esse medo infantil De ter PEQUENAS CORAGENS."

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