"Quando você nasce, cresce e começa a amadurecer dentro daquele castelo que te enclausuraram, é difícil abrir os olhos depois. Nem sempre acontece, mas, comigo aconteceu. Foi de uma hora pra outra, entre uma insônia e outra, olhando as fotos penduradas na parede da cabeceira da cama, eu percebi o quanto não vivo. Lembrei de como tudo sempre foi, de como tudo nunca muda e, depois de me olhar no espelho, perceber o modelo de filha, irmã, namorada, amiga, que criaram pra mim em algum momento da minha infância que eu não lembro, mas que eu sempre segui à risca. O modelo que nunca segue do jeito que acha que deve seguir, que tem que estar sempre bonitinha, que não pode deixar o vento bagunçar o cabelo, que tem que agradar a todos e ser simpática com todos, que não pode chorar em público e nem deixar que percebam quando está triste. O modelo de boa menina, boa filha, boa irmã, boa namorada. O modelo de santa, de certinha, de bonitinha, arrumadinha, educadinha, estudiosa, inteligente, motivo de orgulho pra toda a família. Eu estava com uma caneca de chá em mãos, olhando as fotos com a luz do celular que a Denise esqueceu aqui em casa e comecei a chorar. Sem perceber, a caneca foi pesando e minha mão virando, até o chá quente cair na minha perna. Não foi nada sério além do vermelhão que ficou. Eu fiquei brava, não sabia se enxugava as lágrimas, se continuava a chorar por ter me queimado, ou se ria de tudo isso. Eles não sabem que sou assim, desastrada. Também não sabem que já quase arranquei o queixo de alguém com o joelho porque ele estava vindo me beijar. E não sabe dos milhões de socos e tapas que dei sem querer em uma multidão de seres que cruzou meu caminho por pura distração. Também não sabem das incontáveis vezes que derramei chá em minha roupa, e das vezes que entrei de sutiã no chuveiro e das vezes que sentava na tampa do vaso. Das milhares de vezes que machuquei pessoas pelo meu jeito impulsivo e que, na verdade, não sou tão certa assim. Sou frágil demais pra quem me vê trabalhando e brigando com o carinha da telefonia. E que sou chorona demais pra quem me vê dizendo que não quero me apaixonar, nunca mais. E que por trás de todo esse rímel e batom rosa, existe uma criaturazinha que se derrete quando é abraçada, que se encanta fácil demais, que faz as maiores loucuras só pra fazer bem a quem gosta, e que senta várias tardes na beira-mar só para tentar escrever um poema, compor uma música, e observar as datas em que as pessoas escreveram seus nomes na árvore junto a outro nome que, provavelmente, nem esteja mais ao lado dela. Eles não sabem da minha paixão pela lua e pelo pôr-do-sol. E também não notam os livros que ando lendo nem que, as vezes que me chamam pra jantar e eu recuso, é porque estou com a janela do quarto aberto, olhando a rua e ouvindo música. Coisas que eles nunca fizeram e não entendem o significado. Não entendem a minha paixão por borboletas, nem pelos dias frios de chuva, nem porque meus olhos têm brilhado tanto. Não entendem que não sou o modelo que eles traçaram, que eles queriam. Que a minha profissão não é a do sonho deles, e que eu sou estranha assim. Que eu quero acordar cedo pra estudar, almoçar correndo, ir trabalhar, ficar o dia inteiro na frente de um computador usando a minha criatividade, e quero ir de noite pro curso, e quando chegar, ir escrever poemas, encostada na janela, ouvindo as minhas músicas preferidas. Que isso tudo sempre me fez bem e que foi o que eu sempre sonhei. Que eu não quero namorar um modelo, como eu. Mas alguém que só queira viver intensamente. Como eu tenho tentado, ultimamente. Que eles, algum dia, possam conhecer de verdade a pessoa que conviveu com eles todo esse tempo, e que prestem mais atenção nos simples detalhes que sempre me fizeram toda diferença. Os detalhes que me fazem insistir no amor, na amizade, na fé. Que não me deixaram parar de remar."
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Ver todas"Eu não tenho travas na língua. Sempre fui tão impulsiva, tão exagerada, tão sincera. Desde que fosse a verdade do que sinto, nunca me envergonhei de dizer nada do que se passa aqui dentro, do que eu penso. E, mesmo sendo tão cruel, tão injusta, tão desumana; ainda continuou amando sozinho. Isso foi nobre. Mais nobre do que as verdades que eu disse, do que as vezes que insiste com fé ou sem fé nenhuma. Foi mais nobre do que todas as vezes que eu te procurei querendo conversar. Eu te olhei sem querer olhar, sem querer dizer que eu andei errado, de novo; e que seus conselhos estavam certos. Que você fez até onde pode e, depois, me entregou pra alguma coisa que nunca existiu. E foi bom te olhar e descobrir que eu ainda encontrava o conforto, o abrigo que eu sempre tive. O amigo, acima de tudo, que sempre me viu como eu realmente sou, e nem por isso deixou de me amar. Que não se importou com todas as verdades que eu te disse, que eu sei que te machucaram. Mas ficou ali, calado, me ouvindo, rindo de mim por ser tão boba, tão sonhadora e tão sincera. Perguntando se ainda compro flores, se ainda olho a lua e se eu notei que ultimamente uma estrela tem brilhado mais que todas as outras. Sabe quando você implora que alguma coisa aqui dentro te faça amar esse alguém como nunca antes? Que você o ame como ele merece, que possa retribuir todo esse amor consentido? Mas, eu não consigo. E foi lindo ouvir você dizer que também me entendia por eu não conseguir te amar como devia. É exatamente por isso que eu continuo. Eu posso perder algumas pessoas, mas, eu sempre ganho uma que me surpreende, às vezes nem ganho, ela já está ali do meu lado, só esperando ser notada. Obrigada por ter ido atrás de mim, por pedir pra eu te olhar, sem medo, como sempre fiz. Obrigada pelo suco que eu não queria, por me ouvir, por querer saber de cada detalhe, e por parecer tão certo do que sempre sentiu. Eu te admiro e te respeito, e te amo, de alguma forma, mas amo. Amo pelo tempo que me conhece, que se dedica, que se importa, que se preocupa, que cuida, que liga, que me atura, que me entende, que me olha, que me ouve, que me toca, que me abraça, que cala, que fala, que sente, que dedica tanto da sua amizade, do seu amor. Obrigada por amar sem pedir nada em troca. Uma hora ou outra a gente sempre é amado como merece... Que alguém te ame e cuide de você como você merece. Eu, aqui, trancada dentro de mim há dias, continuo sem a esperança de ser um dia tão nobre como você. É confuso demais, suspeito demais, exagerado. Não seria a minha vida se não fosse assim, não é verdade? Não seria eu se não tivesse um bocadinho de drama. Buenas... Vem o vento e muda tudo de lugar. Um dia eu vou dizer que ISSO É BOM. Por enquanto, ainda estou meio perdida com a bagunça que o vento fez aqui em casa, também terei que me acostumar com a antiga situação, eu nem lembrava mais como era. Bom... Que as coisas boas voltem, e que essa coisa seca aqui fique por pouco tempo. Sinto cheiro de bons ventos no ar :) E isso é bom, de novo. A luz volta a brilhar de manhã e você sabe que eu estou esperando você sorrir, sempre. Todos os dias tem pôr-do-sol e eu não pretendo ir tão cedo...!"
"Digamos que eu tenha aprendido e, hoje, pode ser que ele fique por mais tempo ao meu lado, sendo meu apoio e abrigo, mas se eu o perder cedo demais, como perdi tantas outras pessoas, eu fiz a minha parte. Dei o melhor de mim e não posso dizer que não valeu à pena. O melhor é saber que depois de cada momento, a gente sabe que sempre estaremos nos buscando, mesmo que um dia a gente se perca. Eu tentei várias vezes encontrar resposta pros motivos que não deixam a gente se afastar como me afastei de tantas pessoas, mas desisti. Você mesmo me disse que não sabe explicar. Tudo bem. Eu também não sei. A gente não sabe o que sente, e se sente, o porquê do sentir. Também não temos noção do tamanho do sentimento, seja ele qual for. E se um dia nos perdermos, se vai doer muito, ou não. E se algum dia os caminhos se cruzam de novo e o mundo dê voltas, ou não. É seguro demais a maneira como afirmamos que temos as rédeas de tudo. Que tudo está sob controle e que nada vai sair do planejado. Eu sinceramente espero que nada saia do planejado, do afirmado, do conformado. E... O importante é que teremos coisas bonitas pra contar. Você está bem e eu me orgulho de te ver assim. E eu torço muito para que você fique bem para sempre, como você merece e sempre mereceu. Um dia me perguntaram se eu confiava em quem amava. E eu disse que sim. E a pessoa me perguntou: A que ponto? E eu respondi: Ao ponto de me jogar de um prédio de vinte andares na certeza de que ele me pegaria em seus braços lá embaixo. No seu caso, o prédio podia ser de quarenta andares que eu continuaria confiando. ;)"
"Dizem que para o amor chegar não há dia, não há hora e nem momento marcado para acontecer. Ele vem de repente e se instala no mais sensível dos nosso orgãos: o coração (não poderia ser no fígado? by Hans). Começo a acreditar que sim; mas percebo também que pelo fato deste momento não ser determinado pelas pessoas, quando chega, quase sempre os sintomas são arrebatadores. Vira tudo às avessas e a bagunça feliz se faz instalada. Quando duas almas se encontram, o que realça primeiro não é a aparência física, mas a semelhança das almas. Elas se compreendem e sentem falta uma da outra, se entristecem por não terem se encontrado antes, afinal, tudo poderia ser tão diferente. No entanto, sabem que o caminho é este e que não haverá retorno para suas pretensões. É como se elas falassem além das palavras, entendessem a tristeza do outro, a alegria e o desejo, mesmo estando em lugares diferentes. Quando almas afins se entrelaçam, passam a sentir saudade uma da outra, em um processo contínua de reaproximação até a consumação. Almas que se encontram podem sofrer bastante também pois, muitas vezes, tais encontros acontecem em momentos onde não mais podem extravar toda a plenitude do amor que carregam, toda a alegria de amar e de querer compartilhar a vida com o outro, toda a emoção contida a espera de um encontro final. Desejam coisas que se tornam quase impossíveis mas que são tão simples de viver como ver o pôr-do-sol; caminhar horas na beira-mar; ver a noite chegar; olhar o mar; olhar a lua; ir ao cinema; conhecer novos lugares; rir e brincar; brigar às vezes, mas fazer as pazes com um jeitinho todo especial; contar segredos; amar e amar... Muitas vezes. Sabendo que, logo depois, poderão estar juntas de novo sem que a despedida se faça presente. Porém, muitas vezes, elas se encontram em um tempo e em um espaço diferente do que suas realidades possam permitir, mas depois que se encontram ficam marcadas, tatudas, e ainda que nunca venham a caminhar pra sempre juntas, elas jamais conseguirão se separar, e, o mais importante, terão de se encontrar em algum lugar. Almas que se encontram jamais se sentirão sozinhas. E, pra sempre entenderão a infinita necessidade que uma tem da outra."
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