"Datilografia Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano, Formo o projeto, aqui isolado, Remoto até de quem eu sou. Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro, O tic-tac estalado das máquinas de escrever. Que náusea da vida! Que abjeção esta regularidade! Que sono este ser assim! Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavalarias (Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância), Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho, Eram grandes passagens do Norte, explícitas de neve, Eram grandes palmares do sul, opulentos de verdes. Outrora... Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro, O tic-tac estalado das máquinas de escrever. Temos todos duas vidas: A verdadeira, que é a que sonhamos na infância, E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa; A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros, Que é a prática, a útil, Aquela em que acabam por nos meter num caixão. Na outra não há caixões, nem mortes. Há só ilustrações de infância: Grandes livros coloridos, para ver mas não ler; Grandes páginas de cores para recordar mais tarde. Na outra somos nós, Na outra não vivemos; Nesta morremos, que é o que viver quer dizer. Neste momento, pela náusea, vivo só na outra... Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinístro, Se, desmeditando, escuto, Ergue a voz o tic-tac estalado das máquinas de escrever."
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Ver todas"Começo a ler, mas cansa-me o que inda não li. Quero pensar, mas dói-me o que irei concluir. O sonho pesa-me antes de o ter. Sentir É tudo uma coisa como qualquer coisa que já vi. Não ser nada, ser uma figura de romance, Sem vida, sem morte material, uma ideia, Qualquer coisa que nada tornasse útil ou feia, Uma sombra num chão irreal, um sonho num transe."
"Que náusea de vida! Que abjecção esta regularidade! Que sono este ser assim!"
"Partir! Nunca voltarei, Nunca voltarei porque nunca se volta. O lugar a que se volta é sempre outro, A gare a que se volta é outra. Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia."
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