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"Tecnologia do Bem Na trilogia cinematográfica De volta para o futuro, sucesso levado às telas no final da década de 80 e início da de 90 pelo diretor Robert Zemeckis, as personagens Marty MacFly e Emmet Brown respectivamente interpretados pelos atores Michael J. Fox e Christopher Lloyd protagonizavam uma aventura deliciosamente fantástica... Uma espécie de sonho coletivo que, há milênios, povoa o imaginário da humanidade: viajar numa máquina do tempo. O tema exerce um fascínio tão grande sobre as pessoas que, não raro, origina séries televisivas, desenhos animados e livros como A máquina do tempo, de H. G. Wells clássico da ficção científica. Entretanto, tanto na vida real quanto na ficção, todos os sonhos têm um preço. Um preço, às vezes, exorbitante. Sobre esse ponto de vista, o filme de Zemeckis é muito competente, na medida em que nos mostra, sem rodeios, os dois lados dessa interessante moeda tecnológica. Desde o primeiro episódio da trilogia, percebemos que as idas e vindas das personagens em seu turismo espácio-temporal podem ocasionar mudanças drásticas no curso da História, causando transtornos gigantescos para todos. O recado é claro: toda a tecnologia, todo o progresso, todo o desenvolvimento deve ser responsável. Suas conseqüências têm de ser avaliadas, medidas e conferidas de modo a serem usadas em benefício da vida., em benefício da prática do bem. Mesmo quando a proposta inicial não é essa, há que se realizar esforços contínuos da comunidade científica para reverter esse quadro, tornando as invenções instrumentos que contribuam para o nosso processo evolutivo. Em pleno século 21, a Internet não deixa de ser uma espécie de "máquina do tempo", porque nos permite viajar e desbravar fronteiras ao clique de um simples botão. É preciso lembrar, entretanto, que os primeiros passos para a criação da Internet foram dados na década de 60, no século passado, para fins militares, o que não chegou a ser surpreendente, considerando que as duas guerras mundiais impulsionaram a ciência e a tecnologia. Porém, colocando de lado as intenções discutíveis dessas inovações, há motivos nobres a se ressaltarem em torno delas. Motivos que deram a ela esse caráter imprescindível que vemos hoje. A Internet, que trazia em seu projeto inicial o objetivo de ser uma rede de informação indestrutível a ataques militares, prestou-se também, já nos primeiros anos de existência, às instituições de ensino e pesquisa. É essa aplicação da tecnologia da informação e comunicação em rede a serviço da Educação que nos desperta para a verdadeira importância desta iniciativa. Felizmente, no Brasil o acesso à Internet já chegou como parte de um projeto de intercâmbio entre instituições científicas nacionais e estrangeiras. O compromisso era com a troca de experiências, conhecimentos e informações. Hoje, a Internet atingiu proporções indissociáveis da Educação, da formação humana e da conquista do saber. A força alcançada por esse meio é de tal proporção que se pode dizer, com boa margem de segurança, que a Internet se tornou um dos principais propulsores da melhoria das relações humanas e da interação entre os indivíduos a distância. Mesmo assim, faz-se necessário lembrar que a tecnologia é apenas um dos numerosos e eficazes caminhos para evoluir. É preciso evitar o que o filósofo Herbert Marcuse denominou de "o homem unidimensional" aquele que se especializou numa única linguagem e só consegue ver o mundo por meio dela. Seguindo nessa direção, do uso da tecnologia como ferramenta indispensável para melhor criação, produção e superação das limitações, lançamos recentemente um programa que disponibiliza uma rede integrada de comunicação para videoconferência em 89 localidades, operada no sistema Internet e de alta velocidade, a serviço dos professores da rede pública de ensino no Estado de São Paulo. A iniciativa, denominada "Rede do Saber" é um serviço essencial para o nosso programa de formação continuada dos educadores, que objetiva um constante crescimento técnico, intelectual, emocional e afetivo, especialmente num Estado com 645 municípios. Esse compartilhar de vivências e experiências que a "Rede do Saber" proporciona nos permitirá aprofundar o conhecimento do professor nas situações de aprendizagem e as contradições vividas nas salas de aula. Ao contrário da máquina do tempo do filme de Zemeckis, nossa "Rede do Saber" só tem aspectos positivos. É uma prova de que a Internet expõe uma face interessante do homem. Ele foi competente em converter a sua idéia individualista em algo capaz de tornar a sociedade mais comprometida com o desenvolvimento dos cidadãos. É isso: é preciso transformar sonhos em realidade sempre com responsabilidade e visando, sobretudo, o bem coletivo. Publicado no Jornal Vale Paraíbano"

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"Razão sem emoção, alma sem corpo e dever sem prazer são maniqueísmos que prejudicam o equilíbrio das coisas."

"SOBRE ÉTICA,CULTURA E POLÍTICA Guimarães Rosa, em entrevista ao crítico Günter Lorenz, disse que "a política é desumana porque dá ao homem o mesmo valor que uma vírgula em uma conta". A desumanidade da política extrapola a esfera dos governantes e governados e navega nas várias esferas da vida na pólis, na sociedade. A desumanidade, lembrada pelo escritor Guimarães Rosa, refere-se à falta de compromisso com a verdade, com o conhecimento. Há por aí filósofos de pára-choque de caminhão. Pessoas que julgam pessoas sem o menor conhecimento de sua obra. Vários pensadores foram vítimas desses semicultos. Colocaram frases jamais proferidas na boca de Maquiavel. Deturparam Marx ou Sartre. Ridicularizaram ideologias. Sobre os semicultos, escreveu Mário de Andrade nos idos de 1927: "A gente pode lutar com a ignorância e vencê-la. Pode lutar com a cultura e ser ao menos compreendido, explicado por ela. Com os preconceitos dos semicultos, não há esperança de vitória ou de compreensão". Os semicultos estão por aí, escondidos atrás de um pequeno poder. Dizem superficialidades, deixam-se levar por um olhar tacanho do que não conhecem e fingem conhecer. Os semicultos não têm a humildade necessária para a dialética. Não há antítese. Apenas tese. Tosca tese de quem nunca nada defendeu. Apenas destruiu ou tentou destruir. Há de se discutir a ética na política, nas organizações e na mídia. Falta com a ética o político demagogo ou o corrupto, ou o que semeia inverdades em redações de jornais e revistas, ou o que mente à sociedade. Falta com a ética o jornalista que se deixa deslumbrar com o poder de destruir e não investiga, não vai a fundo no que escreve. Falta com a ética quem destrói a gestão do outro, a obra construída solidamente na política ou na empresa. O trabalho sagrado de servir. É tempo de ética. Da ética aristotélica do meio-termo. Da ética do valor, da axiologia preconizada por Miguel Reale. Do conceito correto de política que constrói Estados e pessoas, como sonhava Bobbio. Da ética da linguagem. A palavra a serviço da verdade e do conhecimento. A semiótica de Umberto Eco, que, relembrando Cícero, fala em razão e emoção. Em fragilidade e consistência. Da ética da humildade. Os arrogantes ou semicultos se distanciam muito da verdade, pois só enxergam a si mesmos. Humildade no respeito à diversidade. A intransigência leva ao radicalismo, e este, à tragédia. Franco Montoro dizia que há coisas em que não podemos ceder -valores, ética. Quantos às outras, é preciso ter olhos de ver. Humildade em reconhecer o valor do outro. Não podem interesses levianos de períodos eleitorais jogarem lama em carreiras construídas com afinco. Adélia Prado, poeta da leveza, disse: "Só pessoas equivocadas quanto à natureza do fato literário repudiam um livro por sua casuística religiosa. O enredo ou tema de um livro não é o que o torna bom ou mau. Seu valor e desvalor têm a ver com forma, apenas". A maturidade literária ou a maturidade crítica exige conhecimento, profundidade. "Não li e não gostei" é coisa de semiculto. Enfim, que neste ano eleitoral haja muito debate, muita investigação e, acima de tudo, compromisso com a verdade. Que a ética permeie o calor do debate, que será mais rico e belo se deixar fluir o passado e o amanhã sem desmerecer a pessoa. Um debate ético lança luzes sobre idéias, não sobre perfumaria. Um debate ético ajuda a consolidar a cultura democrática e respeitosa. O Brasil tem mulheres e homens com essa postura em todos os ambientes profissionais. Que esses sirvam de exemplo aos demais. São profissionais que construíram uma obra. Aliás, o que é muito mais edificante do que destruir obras alheias. Publicado no Jornal Folha de São Paulo"

"DEFINIR PRIORIDADES Não há partido político ou administrador público que negue em discurso a educação como prioridade para o desenvolvimento da cidadania. Mas, na prática, vemos medidas tomadas apenas para visibilidade, como inaugurar prédios e promover foguetórios. Prédios - mesmo que sejam palácios - não resolvem a relação entre mestres e aprendizes. Como processo, a educação requer continuidade. E há muito que continuar fazendo pela educação. A começar por eleger o essencial. O governo Fernando Henrique Cardoso criou o Fundef para universalizar o acesso ao ensino fundamental. E conseguiu avanço gigantesco: das crianças de 7 a 14 anos que freqüentavam a escola, passamos de 88% em 1994 para 97% em 2004. O segundo desafio era a qualidade. Para aferir a qualidade do ensino, criou mecanismos de avaliação. O Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb), o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), e o Provão, para o ensino superior, são instrumentos que permitem diagnóstico válido para o conhecimento e a ação, e para alocação de recursos em programas certos, nos lugares certos. Mudar esses instrumentos fará com que se perca o histórico e tudo terá de ser recomeçado do zero. Pergunta-se qual a prioridade do governo Lula em termos educacionais. O ensino fundamental? O médio? O superior? A creche? A alfabetização de adultos? Não há recursos para tudo, por isso é preciso escolher. O que não significa optar apenas por um recorte do processo e abandonar os outros, mas separar o que é prioridade do que é importante, envidando mais esforços na prioridade. Atualmente, dos R$ 22,8 bilhões de recursos do Fundef, menos de 2% vêm da União. A grande parcela do recurso federal sustenta universidades. Debate-se a elaboração do Fundeb, que pode ser uma evolução do financiamento da educação ou um grande perigo. O Fundeb dará certo se houver significativo aporte de recursos do governo federal e se forem bem engendrados mecanismos de arrecadação e distribuição. É preciso eleger prioridades! O Brasil pode tomar como exemplo a Coréia do Sul, que elevou para 95% o percentual de cidadãos com idade entre 25 e 34 anos que contam com o ensino médio completo, graças ao investimento de 7,1% do PIB no ano 2000, mais que os EUA, que no mesmo ano investiram 7,% do PIB - a média mundial é de 5,9%, e a do Brasil de 4,2%. O resultado sul-coreano levou uma geração para ser alcançado, e vem sendo aplaudido como exemplo de política pública. Em São Paulo, vencemos a batalha da quantidade: o ensino fundamental está universalizado. Para vencer a batalha da qualidade, o governo de São Paulo investe, por ano, R$ 100 milhões em formação de professores e equipamentos. No início de 2005, 100% das escolas terão laboratório de informática. E todas as escolas já estão abertas nos fins de semana. São Paulo tem evasão escolar da 1 à 4 série de apenas 1%. Quando a escola é acolhedora, os alunos não a abandonam. Os indicadores nacionais vêm mostrando governadores e prefeitos comprometidos com a educação, caminhando na direção da gestão para a qualidade. Que os novos prefeitos eleitos saibam investir recursos no que é essencial e não queiram apenas destruir o que construíram os antecessores. A bandeira da educação deve tremular acima das bandeiras partidárias. Publicado no Jornal O Globo"

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